sábado, 15 de junho de 2013

A desnecessária compleição da fuga

Fugimos
com os dedos entrelaçados
e assim finda mais uma história
que só soube ter início
num quadrado de estática
a relampejar
decadências
dos amores que não se têm.

Efectivamente
não se têm
e não sei até quando persistirei na ideia
de que mais vale um iluminado
jogo de cabra-cega com
as mãos atadas
e o baixo-ventre aquecido
esfregado
explorado
esvaído
antes isso tudo criado
na mente de um demónio ateu
antes isso tudo
do que tudo isso invertido e feito
vida a três vozes
a estabelecer o tema
a resposta a dominar
e o contra-tema que justifica
o haver palavras
para as dizer
e só isso mais nada
serve o bastante
para qualquer dia agarrar em mim
em nós dois
em nós três encostados uns aos outros
apertados dentro do punho de deus
para subitamente
ficarmos sem ar que é coisa
terrena
e sem corpo que é coisa
etérea.
pode ser que assim acabe por se consubstanciar
o espírito na carne e a carne no espírito
e por fim soe a nota pedal
tão solta na sua latência
rígida mas tão independente
como um acto de beijo roubado
ao próprio
que se sabe presente.
Soa a coda final e é o adeus ao tempo
em que juntos cruzámos
mais mar que outro sentido
para achar na terra própria
do nosso umbigo
aquela aspiração a ser doente
aquele frio de espinha a ser cal de muro
contra o tempo de verão com sol
tão inocente.
pode ser que chegue a hora em que atire
os recortes de precipício entre as fotografias
para a garganta
e os engula com satisfação de leigo.
há tanta coisa que ainda não sei
e que só me arrependo.
como não matar com a febre mais funda
com o doce impossível sibilar das manhãs
esta tão vil perfumada serpente?

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