domingo, 26 de abril de 2015

daqui partem muitos comboios
do canto escuro do quarto
do sobrolho levantado
das ondas partem
os dilúvios e as mãos na cabeça
os teus olhos ou lá onde isso fora
onde um daqui partem muito
os confusos os alienados
a farda branca as mãos um nó
o canto escuro do retrato
as janelas sem quartos daqui
onde os amamos
os dilúvios que partem para a espera
do outro lado onde
lá chegar é só isso
uma mão no peito no
meu centro a cabeça dentro sonhando
os teus olhos de onde comboios
partem muitos onde
nunca a estação.

terça-feira, 21 de abril de 2015

cristo disse
a linha da sombra sempre exígua
para retornar a voz ao cume
palavra sincera para a escatologia
e isso não lhe conferiu graves
ao timbre apenas um cigarro consegue
da montanha o sermão gemido
que apascente a peste humana

______________________

ritornelos frígios
sob a manhã
minha mão lenta de incêndio
buscando em límpida hulha
o milagre do corte
ou
risos crimes e acrimónia
trindade dos sete cabelos de salomé
fascículo único divisão separatista
na testa a derisão dos novelos
dizê-lo palavra de honra
é entendê-lo

____________________

o que me custam
os passeios os paninhos os recreios
o que me comem
as boleias as mistelas as panaceias
o que me crivam
os regastes os heróis os tomates
o que me enchem
os ilustres os asfaltos os embustes

Voglio a voltar ao de cima
Ao rente que passe à cara
À experiência poética do per se
Ao dente doentinho em falta
O estar sozinho é estar inteiro
(A boca à tona. O pulmão ao fundo)


domingo, 19 de abril de 2015

e fique assim o erro exposto no papel
erro maior porque visto e consentido
e perdure o erro queimando aceso na noite que é não ter quem o veja

e fiquem as alvíssaras à infância
uma derrota pelo caminho
e eu um limite de som na estrada
pedindo auxílio ao meu filho morto

e fique este cair para fora
osso distante que explode dentro
e a rasura que era o osso no papel
um ritmo a caneta de fogo escuro

e fique a pulso a tinta contida
nunca contada forma de ser gente
e o erro solitário queima porque é mais
erro este som arbitrário este

falar ao lado faltar o chão
porque se nasce sem pés
em forma de boca

tivera já o dom de conseguir falar
calado

a inexprimível ciência dos passos
perdidos

fora debruçado à janela
um morto

fumando calmo o olhar frio
do vizinho
importa não morrer
antes ser bom filho
ter as costas um espaço
lento importa não
sofrer por dá cá aquela
falha da alma nos dentes
de quem passa na rua a um
só olho importa não escrever
demasiado o que se sente depois
da água gaseificada plas fontes
do jorro sobra o lábio onde importa
não querer ser mais que as manhãs
ou a correspondente paralisia
importa não saber para nada disto
de que é composta a sopa quem a obrou
quem veio trazer o som antes da boca
ou onde o vestuário do rosto
importa no fim mais o papel
que o tempo e acabar por dizer tudo
sem corpo como se o levasse
o estar inteiro no momento.

para o fim a saliva
importa o projecto em falta
este poema estar aqui e cosido
ao ar que o sustenta

terça-feira, 14 de abril de 2015

um dia chamar-me-ei vento
coisa nenhuma ao entardecer
aí nesse espaço podes vir
roubar a voz permanente
eu um chão sentado para que venhas
e leves o que resta dos meus dentes.

tão triste escrever mal
assim

abrir a frecha do som
pela dobra medíocre

um dia não mais te ver
aí um ponto fundido em dor agulha
para saber que dura pouco
este esquartejar

____________________________________

sozinho o bulício
abrir a perna fechar o estore
ler rente à pele
que emanamos a peste

uma cinza despudorada
enquanto durmo
odeio servir de língua à pátria
e a cabeça em jarro partido um soluço

dizia suplicio
sozinho o

martírio de rojo aos tapetes
escrevo-te para que me esqueças

reforço
o contacto das mãos
sub mesa em erecção
que desperdício

ou falar-te do quanto penso
nos pormenores
outros vincos outras luzes
rápidas palavras para o vazio

tudo isso cansa
não te amar cansa sobretudo
a roupa peganhenta no acto

ao copo o lábio
o triste é ser fodido
e dizê-lo é já um assento quente em sete rios

o real está aqui para desmenti-lo
quer sova deixemos
o rosto intacto
para recebermos todas as manhãs
que ainda nos sobram

______________________________________
 não pensem que acaba aqui
bonito e rechonchudo
isto isto coio abjecto corpo rançoso
esta poesia
isto de ser merda
seus merdas
(e isto era desnecessário
olha a moral:
Não o é toda a poesia?).

_____________________________

Agora findo
Assim eu mais triste
Como um desisto.
Vim para a fome.
Disseram espere
Vem aí Quem lha pegue.

E assim dormi.

domingo, 12 de abril de 2015

apresentação ligeira para
os amigos de dentes cerrados
aplauso na algibeira lê-se
o rodapé dos retratos e o lanchinho
preparado pela tarde ressona vem
o moscardo na languidez dar à mansidão
o seu cardo. impera o respeito
mas o silêncio talvez seja outro
o dito e o não feito o que foi e
não deu jeito. acaba-se uma vírgula começa
a enegrecer a carne a tarde diz-se plena
de vazios pequenos destes. absorto olho
a quem está detrás da coisa. diz-se alto o que
depressa se esquece e é certo que
não tenho essa velocidade mental
ou esse estirar de pernas metafísico
que faço questiono-me onde me fica
o fundilho das calças o duríssimo rabo de espera
a comichão na cara rarefeita estirada ao comprido
do descalço onde me fica a sensaboria a razão
e perdido vou levado em barca alheia
digo já com um sorriso e a testa plena
o que não digo a cara cheia de espuma
anuindo à força mas mais assim porque
sem forças todos nós a maré para que remamos
anda cá um abraço já há muito que somos
manos a carne e a unha e tu soube sempre
que tinhas a mais o que eu nunca para estes sítios
demorar-me nesta demora de entretempos
ter a vida feita pela janela um tiro de pombos
eu apenas a lâmpada a rugir em piscadelas
a tosse do outro do lado a rua e a luz
e já te disse que há sempre algo nas janelas
mas eu não o incenso e o oom das velas
vamos amigo e um copo mata o outro
vamos para longe ter na tinta as impressões
que criminoso comparar a litúrgica cirurgia
explanação dos órgãos interiores à mácula
de ser-se humano poeta não só
mais um derivado ou um corpo estranho.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

põe a mão na cara. esconde a cara. revela a escara.

é necessário que se entenda
o cuspo directo no mar é
necessário que se entenda
o papel da transcendência é
necessário que se entenda
a mística dos pacotes de leite é
necessário que se entenda
como estragar um poema é
necessário que se entenda
a pele como manifestação da doença é
necessário que se entenda
o limiar da cumplicidade é
necessário que se entenda
o que permanece e eu fora é
um dia de chuva necessário
que se entenda é o sorriso em lâmina
das estrelas é necessário que se entenda
o quanto falta lá chegar é
necessário que se entenda
isto a coisa é antes de ser
necessário. isto é necessário
que não se entenda.

da imbecilidade dos aforismos

o poema começa sempre pobre
leiam-lhe o rasto
gostaria de não ter que falar
e que as vozes se calassem
talvez no fundo obrigue à inveja
o silêncio dos que partem
gostaria de não ter que cantar
repetidamente sujo e ignóbil
o que os outros cantam
e no fundo o talvez ser certo
a corrente mística do tédio
a maldição contemporânea do ócio
o ser isto só meu e no fundo urbi et orbi
mas um só meu diferente
antes de vir a ser preso padecer da fome
morrer intocado sentir que o que a pele
me diz foi sempre o sossego
tintura única de cor só e peço
quero descansar onde e do que não mereço

antes de falar que me calem
o jardim o nu em espera
o tempo é ser outro este
é estar sempre longe e ganha-se
ao espaço com uma fractura de dedos
a sorte em espera anuncia:
onde calar essa voz esse resto de ti
para sempre eu meu resto
já só o que deambulou e o que não perco
porque ganhar é na verdade ter lábios
e saber sempre esconder a velhice
onde me despeço é em ti
frase solta e tão já feita percorrida
pela cidade um cinzento em forma de fim
e tu dizes: onde guardar estes dias
ou dizes: não há viver demasiado
mesmo sabendo que já não é o tempo
teu das tuas tarefas semanais dos teus passos
de missa dominical do serviço de percorrer a baixa
nas horas frias

para que me serve isto
a voz em plural a cortina das palavras
a dançar veneno louco à língua
que me impingiram

vou sentar-me onde me cresçam
fundas raízes de não lembrar ninguém
e a poética germinará
para lhe poder amordaçar os cabelos

quinta-feira, 9 de abril de 2015

não é só isto que fica
ficam também
pequenos actos pequenas fricções
pequenos atropelos
a roupa coçada e talvez um aperto
a penúria para ser exacto
a pacatez solar de um dia estagnado
a forma dúctil e prescindível das vozes
o som directo do vício
a bala raspada no peito
o nunca haver balas o peito inteiro ainda
o ritmo sempre o ritmo
cego sempre o ritmo a loucura
dos dentes raspando o ritmo
para ser exacto a fome
em ritmo e também o que fica é isto
o emparedado e a rugosidade do betão
o semelhante também isso o calor mesmo
igual e gritante do outro lado
pretendia o silêncio
e afastei as mãos num jorro
tudo dito tudo feito
a feiura este vidro diurno
uma janela com faces dentro
o longínquo canto do que começa
veio a ser o
silêncio pretendido por dentro
das estações os passageiros
o tempo neles à mão
e a colheita a refrega
tudo isto tudo aceito
onde morar o crime esgotado
portas abertas para o cerco
erro nas contas a esperança do que
não digo como
ler nas frontes o medo a palavra
dor errada aqui sempre
um caminho diferente das mãos
uma rota que diverge e faz dos passeios
a lenta consumação do que se perde