sexta-feira, 10 de abril de 2015

gostaria de não ter que falar
e que as vozes se calassem
talvez no fundo obrigue à inveja
o silêncio dos que partem
gostaria de não ter que cantar
repetidamente sujo e ignóbil
o que os outros cantam
e no fundo o talvez ser certo
a corrente mística do tédio
a maldição contemporânea do ócio
o ser isto só meu e no fundo urbi et orbi
mas um só meu diferente
antes de vir a ser preso padecer da fome
morrer intocado sentir que o que a pele
me diz foi sempre o sossego
tintura única de cor só e peço
quero descansar onde e do que não mereço

antes de falar que me calem
o jardim o nu em espera
o tempo é ser outro este
é estar sempre longe e ganha-se
ao espaço com uma fractura de dedos
a sorte em espera anuncia:
onde calar essa voz esse resto de ti
para sempre eu meu resto
já só o que deambulou e o que não perco
porque ganhar é na verdade ter lábios
e saber sempre esconder a velhice
onde me despeço é em ti
frase solta e tão já feita percorrida
pela cidade um cinzento em forma de fim
e tu dizes: onde guardar estes dias
ou dizes: não há viver demasiado
mesmo sabendo que já não é o tempo
teu das tuas tarefas semanais dos teus passos
de missa dominical do serviço de percorrer a baixa
nas horas frias

para que me serve isto
a voz em plural a cortina das palavras
a dançar veneno louco à língua
que me impingiram

vou sentar-me onde me cresçam
fundas raízes de não lembrar ninguém
e a poética germinará
para lhe poder amordaçar os cabelos

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