tenho dois pés
a sofrer da lentidão do espaço
um ar cansado nos olhos
como areia erodida a metrónomo ternário
uma dúvida resiliente no queixo
desaparecida na terra linear das fronteiras
muitas muitas vastas longas
[e súbito] olheiras
rastejando vejo-me um terço de mim
sobre o ardor das pedras em planar
marcescente. tenho a mão sempre fechada
até a unha beber da carne viva a lágrima certa
mais doente. sempre uma hora existe em que me desfaço
empurrado pela folha mais jovem
definho os caminhos por onde passo.
já não existem dias suficientes para a obra
e: retiro da cidade os ácidos e os gumes
deixo-lhe na garganta a língua de um laço.
escrevo minto e morro de cansaço
domingo, 29 de junho de 2014
sábado, 28 de junho de 2014
domingo, 22 de junho de 2014
hei-de levar comigo rosas em cabelo
a incerteza de um dia feito do teu cheiro
de abandono. a querela das alvoradas
numa forma tua de ser sempre noite
antes de um abraço antes de um tom
de uma forma de forçar a morte
quando calas a dor de um século
sem som. ficamos sempre na linha
metódica da palavra não dita.
resta-nos a forma dos divãs
enrolada ao corpo. os dias cumpridos
nos passeios de fecho de loja
de feriado municipal nas ruas
de corpo aberto ao sol das dez na varanda.
havemos de ansiar uma sentença
saber o nosso nome por fim quando mortos.
porém hoje só a uma enorme vontade
de não te querer. de ter um dia
de ossos dolorosos entre os lençóis
colados à estranheza
do idioma comum das horas.
a incerteza de um dia feito do teu cheiro
de abandono. a querela das alvoradas
numa forma tua de ser sempre noite
antes de um abraço antes de um tom
de uma forma de forçar a morte
quando calas a dor de um século
sem som. ficamos sempre na linha
metódica da palavra não dita.
resta-nos a forma dos divãs
enrolada ao corpo. os dias cumpridos
nos passeios de fecho de loja
de feriado municipal nas ruas
de corpo aberto ao sol das dez na varanda.
havemos de ansiar uma sentença
saber o nosso nome por fim quando mortos.
porém hoje só a uma enorme vontade
de não te querer. de ter um dia
de ossos dolorosos entre os lençóis
colados à estranheza
do idioma comum das horas.
sexta-feira, 20 de junho de 2014
vim porque me esperavam
e vim
às cegas.
a boca a latejar um crime.
nunca sair de casa. ansiar
as praças vazias e o cheiro dos dias quentes
dentro de alguém que passe à pressa.
e vim
porque é tarde.
pode ser que te encontre ainda
passagem última dos autocarros para
os dormitórios em abismo. um suor
já seco em cristal sobre os ombros dos dias
cheios da nossa pele
de véspera.
às cegas.
a boca a latejar um crime.
nunca sair de casa. ansiar
as praças vazias e o cheiro dos dias quentes
dentro de alguém que passe à pressa.
e vim
porque é tarde.
pode ser que te encontre ainda
passagem última dos autocarros para
os dormitórios em abismo. um suor
já seco em cristal sobre os ombros dos dias
cheios da nossa pele
de véspera.
sábado, 14 de junho de 2014
olá boa noite
estamos à conversa com a mediocridade
cresceu-lhe um espinho na língua
durante os intervalos
esperem
ela vai mostrar-nos o seu estranho espinho
esperem não há língua esperem não há
espinho esperem
ela trouxe isto entre as pernas
isto não sei que é isto
não lhe pego
mas já é meu
por distância
por olho contra olho
sorri sabe o nome
o meu e o dos outros
sorri sabe que vence
a estranha sensação de cair e ser chão
encher tudo alagar tudo
com uma presença.
cheiro nauseabundo na antecâmara
vida privada da rotação dos motores
pulsos latejantes às horas mediúnicas
da chamada teleológica. vem de avião
come o traço do caminho o resto de nós
troncos e membros para lhe ser estrada
para lhe abrir o piso queimado em flores
de passo certo em salto falso. tudo
tem uma forma de nunca acabar entre
as paredes deste quarto em concerto agónico.
simplifiquemos
a palavra fede. sobretudo fede.
estamos à conversa com a mediocridade
cresceu-lhe um espinho na língua
durante os intervalos
esperem
ela vai mostrar-nos o seu estranho espinho
esperem não há língua esperem não há
espinho esperem
ela trouxe isto entre as pernas
isto não sei que é isto
não lhe pego
mas já é meu
por distância
por olho contra olho
sorri sabe o nome
o meu e o dos outros
sorri sabe que vence
a estranha sensação de cair e ser chão
encher tudo alagar tudo
com uma presença.
cheiro nauseabundo na antecâmara
vida privada da rotação dos motores
pulsos latejantes às horas mediúnicas
da chamada teleológica. vem de avião
come o traço do caminho o resto de nós
troncos e membros para lhe ser estrada
para lhe abrir o piso queimado em flores
de passo certo em salto falso. tudo
tem uma forma de nunca acabar entre
as paredes deste quarto em concerto agónico.
simplifiquemos
a palavra fede. sobretudo fede.
o sacrum convivio
deitámos três leitões abaixo
(uma aranha a crescer-nos na boca)
as patas convulsas a sacudirem
para fora para fora
réstia de luz e esperança de tempo
mas deitámos tudo abaixo
e ainda sobrou um fio de navalha
para nos entretermos a esquadrinhar
as veias palpáveis
da deusa em pescoço sobre a mesa.
(uma aranha a crescer-nos na boca)
as patas convulsas a sacudirem
para fora para fora
réstia de luz e esperança de tempo
mas deitámos tudo abaixo
e ainda sobrou um fio de navalha
para nos entretermos a esquadrinhar
as veias palpáveis
da deusa em pescoço sobre a mesa.
sábado, 7 de junho de 2014
casta diva
putéfia
sonsa
insonsa
esconsa
manca coxa marreca
gorda e velha
falsa
tez de lustre
mão de cera
um pavão na cona
um relógio enganchado na boca
um supositório alegre
a profanar o canto do ventre.
bellini aos domingos
champanhe na blusa às sextas
a carne estrangulada a carne amarfanhada
revela-te uns dentes mais dentes que os outros.
gira roda tudo
para dentro
mete-o com a mão até ao cotovelo
enche o ar dele todo
debaixo de ti dentro de ti
um ritmo imparável
um batucar de calos e dias inteiros
a rebentar
debaixo dos pés dentro dos pés
calçada de lisboa inteira
acima abaixo
que o país é só isto
que o amor é só isto
que os pêlos no peito são só isto
que o teatro municipal truncado dos teus cabelos
é só isto porra um vento lúgubre
a despontar-te
por debaixo por dentro através
o nojo senhores o nojo
cai e rebola ri chiado abaixo
nem s. carlos nem s. paulo
só a travessa do cotovelo em forma de ti
no sentido da noite
aquele que mais curva e depois nos lambe os pés
como
uma água de prédio em cheia
a sorrir nos espelhos dos armários
o autor vira-se e
já não vê o seu século
as belas e longas pernas varicosas
a fugirem pela corda branca da roupa em estalo
um gorjeio de actriz como em callas
um puta-que-pariu esta febre nestas mãos
como quem queima a folha branca
entre os dentes sobre a testa
os meus lábios só sabem derreter breve a tinta da anunciação
macerada do teu nome
um grito último enquanto a rua ainda abre as pernas
ao incêndio meticuloso da madrugada.
sonsa
insonsa
esconsa
manca coxa marreca
gorda e velha
falsa
tez de lustre
mão de cera
um pavão na cona
um relógio enganchado na boca
um supositório alegre
a profanar o canto do ventre.
bellini aos domingos
champanhe na blusa às sextas
a carne estrangulada a carne amarfanhada
revela-te uns dentes mais dentes que os outros.
gira roda tudo
para dentro
mete-o com a mão até ao cotovelo
enche o ar dele todo
debaixo de ti dentro de ti
um ritmo imparável
um batucar de calos e dias inteiros
a rebentar
debaixo dos pés dentro dos pés
calçada de lisboa inteira
acima abaixo
que o país é só isto
que o amor é só isto
que os pêlos no peito são só isto
que o teatro municipal truncado dos teus cabelos
é só isto porra um vento lúgubre
a despontar-te
por debaixo por dentro através
o nojo senhores o nojo
cai e rebola ri chiado abaixo
nem s. carlos nem s. paulo
só a travessa do cotovelo em forma de ti
no sentido da noite
aquele que mais curva e depois nos lambe os pés
como
uma água de prédio em cheia
a sorrir nos espelhos dos armários
o autor vira-se e
já não vê o seu século
as belas e longas pernas varicosas
a fugirem pela corda branca da roupa em estalo
um gorjeio de actriz como em callas
um puta-que-pariu esta febre nestas mãos
como quem queima a folha branca
entre os dentes sobre a testa
os meus lábios só sabem derreter breve a tinta da anunciação
macerada do teu nome
um grito último enquanto a rua ainda abre as pernas
ao incêndio meticuloso da madrugada.
quinta-feira, 5 de junho de 2014
beau séjour
tudo isto é só uma tentativa
e eu hei-de ficar à porta
a lamentar o café a lembrar
as pernas dos dias que passam
nem vestígio da veia mais densa
dentro dos corpos
apenas o teu copo outra maré
outro riso noutra mesa
outra granada posta nos meus dedos
a esperar a minha manhã de cremação. hei-de
regressar a esse dia
uma tabuleta sobre a alma
dos nados-mortos. teus jardins de carne
ao vento. um sussurro da dormência
que foi. já não vem de novo
o recitativo secco a lembrança
de monsieur de blancrocher
nos meus braços ah miséria humana
entorpecimento de (e voltamos!) lindas e fracas pernas
pelas escadas abaixo falham-me os joelhos
falham-me os teus peitos a minhas mãos
de repente sem osso sem caroço no chão
eu todo chão falho e bom ali sempre
debaixo de nós. só lhe senti o beijo
já a cabeça explodia em flores
ornatos no clavicórdio couperin às sextas
meu divagar clandestino para a província
terra de dentro terra por dentro
que digo sou o parvo inútil
comparo a careca ao armário dos poetas
a gente cá se entende entre apalpões
e a mão de deus há-de ser sempre invisível nesta solidão.
(...)
e eu hei-de ficar à porta
a lamentar o café a lembrar
as pernas dos dias que passam
nem vestígio da veia mais densa
dentro dos corpos
apenas o teu copo outra maré
outro riso noutra mesa
outra granada posta nos meus dedos
a esperar a minha manhã de cremação. hei-de
regressar a esse dia
uma tabuleta sobre a alma
dos nados-mortos. teus jardins de carne
ao vento. um sussurro da dormência
que foi. já não vem de novo
o recitativo secco a lembrança
de monsieur de blancrocher
nos meus braços ah miséria humana
entorpecimento de (e voltamos!) lindas e fracas pernas
pelas escadas abaixo falham-me os joelhos
falham-me os teus peitos a minhas mãos
de repente sem osso sem caroço no chão
eu todo chão falho e bom ali sempre
debaixo de nós. só lhe senti o beijo
já a cabeça explodia em flores
ornatos no clavicórdio couperin às sextas
meu divagar clandestino para a província
terra de dentro terra por dentro
que digo sou o parvo inútil
comparo a careca ao armário dos poetas
a gente cá se entende entre apalpões
e a mão de deus há-de ser sempre invisível nesta solidão.
(...)
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