sábado, 7 de junho de 2014

casta diva

putéfia
sonsa
insonsa
esconsa
manca coxa marreca
gorda e velha
falsa
tez de lustre
mão de cera
um pavão na cona
um relógio enganchado na boca
um supositório alegre
a profanar o canto do ventre.
bellini aos domingos
champanhe na blusa às sextas
a carne estrangulada a carne amarfanhada
revela-te uns dentes mais dentes que os outros.
gira roda tudo
para dentro
mete-o com a mão até ao cotovelo
enche o ar dele todo
debaixo de ti dentro de ti
um ritmo imparável
um batucar de calos e dias inteiros
a rebentar
debaixo dos pés dentro dos pés
calçada de lisboa inteira
acima abaixo
que o país é só isto
que o amor é só isto
que os pêlos no peito são só isto
que o teatro municipal truncado dos teus cabelos
é só isto porra um vento lúgubre
a despontar-te
por debaixo por dentro através
o nojo senhores o nojo
cai e rebola ri chiado abaixo
nem s. carlos nem s. paulo
só a travessa do cotovelo em forma de ti
no sentido da noite
aquele que mais curva e depois nos lambe os pés
como
uma água de prédio em cheia
a sorrir nos espelhos dos armários
o autor vira-se e
já não vê o seu século
as belas e longas pernas varicosas
a fugirem pela corda branca da roupa em estalo
um gorjeio de actriz como em callas
um puta-que-pariu esta febre nestas mãos
como quem queima a folha branca
entre os dentes sobre a testa
os meus lábios só sabem derreter breve a tinta da anunciação
macerada do teu nome
um grito último enquanto a rua ainda abre as pernas
ao incêndio meticuloso da madrugada.


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