antes que te diga
três pancadas na nuca
um exame à consciência a alma nu
a cunha da porta a bater na testa
o repente e somos gémeos
irmãos da mesma cepa
guilhotinados sem troco
acordados para a vida eterna e isto é já de tarde
antes que te diga o que devo
vem a morte pela certa
o ser isto e de repente um pouco mais nada ainda
há-de faltar palavra
juro que há-de mais tempo haver que corra
debaixo da língua que procura
nesta forma dizer o que de outra apenas sabe
chego-me e antes que te diga
há não ter eu estado lá para me chegar e dizer
pensava nisso em casa como se fosse
coisa de pensar
apenas para perder algum comboio
ou a soma desgovernada dos meus passos
na direcção do que
não há antes
há não ter dito nada e se morresse
(acabavam-se os poemas)
et in terra pax hominibus
agora a sério
perdi-me na conversa
dois dedos cortados a meio como
fome de inspiração
mas outras coisas sempre outras coisas
a pairarem na nuvem dos olhos
não me chega o arrependimento
dos crimes que nem pensei
chega-me só ouvir gente a passar na rua
fingir que isto aqui um café ali
uma cidade que ainda treme
como fogo posto a uma hora certa
dentro do espectro de uma testa comprimida
há um sinal de cuspo no chão
nódoa de gordura sobre a mesa
barata ínclita a escalar as pernas da consciência
e eu a sentir o descolar dos ossos sob a carne dizendo
ontem foi hoje para não ser nunca isto aqui
falando a sério
há um sistema de narração do ódio
que ainda não foi descoberto
outros há que se agarram à faca
mas nada como o fingimento e o abatanado
a prole socializada e o parque do supermercado
enfim as coisas bonitas
enfim as coisas bonitas
sexta-feira, 11 de setembro de 2015
sábado, 5 de setembro de 2015
III
emparelhando a verdade nua e crua com bolinhos
considere-se:
podia ter morrido há já muitos anos
os sítios que nunca vi podem até nunca ter existido
saber os nomes das coisas apenas ajuda a esquecê-las melhor
coisas sinceras destas até aquecem
até forram o estômago dos pobrezinhos
dão a esmola que devem dar e depois vão-se
para mais um ano de travessia pelo deserto das ideias
e é passando assim um bom bocado em conversa de circunstância
cruzando a perna ou colando os joelhos
um ao outro o sangue espesso fazendo o contacto certo
por debaixo da pele como se nunca antes sentida
a carícia do sossego
é desta forma que se enganam as tardes
e enganar tardes é a suprema exigência da etiqueta
pela salubridade mental das casas
pela higiene sã dos lavabos e das psiques
a lotaria do desespero só calha mesmo a quem não cuida
do seu quinhão de justo cemitério.
considere-se:
podia ter morrido há já muitos anos
os sítios que nunca vi podem até nunca ter existido
saber os nomes das coisas apenas ajuda a esquecê-las melhor
coisas sinceras destas até aquecem
até forram o estômago dos pobrezinhos
dão a esmola que devem dar e depois vão-se
para mais um ano de travessia pelo deserto das ideias
e é passando assim um bom bocado em conversa de circunstância
cruzando a perna ou colando os joelhos
um ao outro o sangue espesso fazendo o contacto certo
por debaixo da pele como se nunca antes sentida
a carícia do sossego
é desta forma que se enganam as tardes
e enganar tardes é a suprema exigência da etiqueta
pela salubridade mental das casas
pela higiene sã dos lavabos e das psiques
a lotaria do desespero só calha mesmo a quem não cuida
do seu quinhão de justo cemitério.
terça-feira, 1 de setembro de 2015
II
a arte de levitar fogos
florestais carpidores de
cônjuges mortos
os eternos
de mãos dadas quando cai
dentro deles
a casa o túmulo
com três quartos e varanda
para dedos empestados numa trança
a eterna
fica-se a saber no obituário
há um monte em chamas
lá dentro
houve quem voasse longe
sobra só o peso dos beijos
para marcar o lugar
um aroma a defuntos
sob a buganvília um assunto
pendente o queixo aberto ao fotógrafo
o verão passado em cascata
mas já nem esse peso
se voou se voou
a casa levitada no fogo
a falta de molduras
fazendo horror muito grande
não haver quem aqui visse sequer
arder fogo algum
florestais carpidores de
cônjuges mortos
os eternos
de mãos dadas quando cai
dentro deles
a casa o túmulo
com três quartos e varanda
para dedos empestados numa trança
a eterna
fica-se a saber no obituário
há um monte em chamas
lá dentro
houve quem voasse longe
sobra só o peso dos beijos
para marcar o lugar
um aroma a defuntos
sob a buganvília um assunto
pendente o queixo aberto ao fotógrafo
o verão passado em cascata
mas já nem esse peso
se voou se voou
a casa levitada no fogo
a falta de molduras
fazendo horror muito grande
não haver quem aqui visse sequer
arder fogo algum
segunda-feira, 31 de agosto de 2015
I
diziam
no fim o jogo é só uma vida
e eu via ao fundo
a Beatriz
calando no parque entre os gritos
olha que linda
a nossa menina
eu julgava-a morta
eu julgava-a como o que
podia ter sido
era o fim e havia um jogo
nos cafés a acenar calando
olha que linda
uma questão dentro dos olhos
ou isso era eu dentro de um
podia ter sido
outro tempo ou podia ser hoje
e não me aperceberia
havia mesmo uma maneira de olhar
no parque os gritos
de passear o cão entre as árvores
pernas num desmanche ou esse
olha que linda
a nossa menina
como quem crescesse depressa
para desaparecer despressa
como se não bastasse ser cego para ser pai
há ainda um grito impronunciável
no meio das tuas pernas há
um meio outro de atingir este fim
olhando-te como se calasses
esse som de quem persegue o filho
na esquina onde o fixo cego se perde
dá-lhe um braço
e vejo porque é uma vida o quanto basta
para nunca te ter visto onde
algures um banco
ou sempre o parque onde vou matar
o que me resta
para que não haja o meu corpo
certo e verdadeiro
aplicação da regra da idade vezes
o três da responsabilidade genética
olhando por mim e pelos meus cães e pelos meus dentes
porque é de facto tarde
para os ter todos
no fim
é tudo um outro jogo ou antes
um outro conjunto de prédios
o que me interessa é quem já viveu neles
tempo suficiente para se casar
e vir a amar as coisas
deixando no fim a própria pele
do que eu podia ter sido
no fim o jogo é só uma vida
e eu via ao fundo
a Beatriz
calando no parque entre os gritos
olha que linda
a nossa menina
eu julgava-a morta
eu julgava-a como o que
podia ter sido
era o fim e havia um jogo
nos cafés a acenar calando
olha que linda
uma questão dentro dos olhos
ou isso era eu dentro de um
podia ter sido
outro tempo ou podia ser hoje
e não me aperceberia
havia mesmo uma maneira de olhar
no parque os gritos
de passear o cão entre as árvores
pernas num desmanche ou esse
olha que linda
a nossa menina
como quem crescesse depressa
para desaparecer despressa
como se não bastasse ser cego para ser pai
há ainda um grito impronunciável
no meio das tuas pernas há
um meio outro de atingir este fim
olhando-te como se calasses
esse som de quem persegue o filho
na esquina onde o fixo cego se perde
dá-lhe um braço
e vejo porque é uma vida o quanto basta
para nunca te ter visto onde
algures um banco
ou sempre o parque onde vou matar
o que me resta
para que não haja o meu corpo
certo e verdadeiro
aplicação da regra da idade vezes
o três da responsabilidade genética
olhando por mim e pelos meus cães e pelos meus dentes
porque é de facto tarde
para os ter todos
no fim
é tudo um outro jogo ou antes
um outro conjunto de prédios
o que me interessa é quem já viveu neles
tempo suficiente para se casar
e vir a amar as coisas
deixando no fim a própria pele
do que eu podia ter sido
segunda-feira, 11 de maio de 2015
domingo, 10 de maio de 2015
ou levarei coberto o rosto tisnado
como sorrindo o crime da inutilidade
foi preciso isto para chegar aqui
ponto nenhum equidistante só de si
algures no mar o meu braço dizendo
foi dar a alma a um outro demo
foi falar depressa descansar menos as dores
rir só de si mesmo o mundo não adianta
creio mesmo nunca
e de que serve o que nem se diz
perguntava como quem uma resposta já
e de que serve coberto o rosto tisnado
para isto para isto
para levar dentro do rosto um lugar menos cheio
algum furto alguma água algum espaço
só um quanto baste
para amarelecer a folha única
que não escrevo
como sorrindo o crime da inutilidade
foi preciso isto para chegar aqui
ponto nenhum equidistante só de si
algures no mar o meu braço dizendo
foi dar a alma a um outro demo
foi falar depressa descansar menos as dores
rir só de si mesmo o mundo não adianta
creio mesmo nunca
e de que serve o que nem se diz
perguntava como quem uma resposta já
e de que serve coberto o rosto tisnado
para isto para isto
para levar dentro do rosto um lugar menos cheio
algum furto alguma água algum espaço
só um quanto baste
para amarelecer a folha única
que não escrevo
viver costurando o serviço cúmplice dos rostos
estender a mão à cidade roubar-lhe o olho
perfurar as objectivas serenas a lenta decomposição
dos membros agarrando o espírito de viés
cismar
a coisa ser o mundo o mundo a
língua com que se olha e se mexe na coisa
ter tempo para parar o tempo
ser fútil nas reduções ao lume nas palavras
dizer aquele lugar-comum ali acima
não sofrer por isso nem sequer morrer um pouco
apenas saber que um pedaço disto sou eu mas
ficar na rua em que sempre se foi
originar o plano engoli-lo pendurá-lo
recortar sons e cheiros deixar queimar
fixar nomes placas jardins e numa mesa
assentar o chão premir a luz
____________________________________________
dizer-te a cor
deixar-te o fruto
sob a tarde amarelecida
____________________________________________
há-de se dizer disto tudo
cumpriu-se
mas não se há-de dizer
venha o morto
ler-se a cara
nem se há-de dizer
não seja parvo que isto não se acaba
nem mesmo se há-de dizer
faltam vinte para as três
quer ir beber café e morrer depois
nem nunca se dirá
como é ser pobre e ter a boca suja
a que sabe o cuspir sangue às três da madrugada
como é ter uma perna maior que a outra
como se fazem os ninhos em dias de chuva
como se tiram nódoas de vinho das toalhas de mesa
como é ter língua e não se servir dela
há-de se dizer disto tudo
oito euros para nada
estender a mão à cidade roubar-lhe o olho
perfurar as objectivas serenas a lenta decomposição
dos membros agarrando o espírito de viés
cismar
a coisa ser o mundo o mundo a
língua com que se olha e se mexe na coisa
ter tempo para parar o tempo
ser fútil nas reduções ao lume nas palavras
dizer aquele lugar-comum ali acima
não sofrer por isso nem sequer morrer um pouco
apenas saber que um pedaço disto sou eu mas
ficar na rua em que sempre se foi
originar o plano engoli-lo pendurá-lo
recortar sons e cheiros deixar queimar
fixar nomes placas jardins e numa mesa
assentar o chão premir a luz
____________________________________________
dizer-te a cor
deixar-te o fruto
sob a tarde amarelecida
____________________________________________
há-de se dizer disto tudo
cumpriu-se
mas não se há-de dizer
venha o morto
ler-se a cara
nem se há-de dizer
não seja parvo que isto não se acaba
nem mesmo se há-de dizer
faltam vinte para as três
quer ir beber café e morrer depois
nem nunca se dirá
como é ser pobre e ter a boca suja
a que sabe o cuspir sangue às três da madrugada
como é ter uma perna maior que a outra
como se fazem os ninhos em dias de chuva
como se tiram nódoas de vinho das toalhas de mesa
como é ter língua e não se servir dela
há-de se dizer disto tudo
oito euros para nada
segunda-feira, 4 de maio de 2015
isto de que quando crio exulto
isto de que quando crio sou outro
vejo tudo turvo
as coisas em si
e vejo tudo claro
isto é ser de facto eu
um merdas
amigo um merdas
_________
eu fui lavar assim o dia
deixa que te cante
estrofe a estrofe
este estar sempre
__________
fiz mais do que pude
de gatas a ré e de bicicleta
fiz-me à estrada e dei
o corpo porque o mundo
quis
___________
vejo negro tudo
olhar é já mentir
mãe corta-me o medo
a voz desfaz-me o nó
limpa-me os olhos
acordar de novo é dor tamanha
um grito sujo e não passa
para quê este sopro antigo
diz-me para quê o teu rosto
__________
da capo
anotação à guilhotina
a última palavra diz que fende
eu considero sim o teu corpo à luz
para faltar só isso
quando se escreve assim
um mau poema
isto de que quando crio sou outro
vejo tudo turvo
as coisas em si
e vejo tudo claro
isto é ser de facto eu
um merdas
amigo um merdas
_________
eu fui lavar assim o dia
deixa que te cante
estrofe a estrofe
este estar sempre
__________
fiz mais do que pude
de gatas a ré e de bicicleta
fiz-me à estrada e dei
o corpo porque o mundo
quis
___________
vejo negro tudo
olhar é já mentir
mãe corta-me o medo
a voz desfaz-me o nó
limpa-me os olhos
acordar de novo é dor tamanha
um grito sujo e não passa
para quê este sopro antigo
diz-me para quê o teu rosto
__________
da capo
anotação à guilhotina
a última palavra diz que fende
eu considero sim o teu corpo à luz
para faltar só isso
quando se escreve assim
um mau poema
e agora que temos
o poço dos negros
a casa avarandada
um sorriso e as vizinhas são
uma simpatia mas não
nos deixam sequer largar-lhe o cão
à porta e bem pensando
agora que temos dias
luminosos tabaco e jornal
dois pedais e miúdos
um sem cessar de amigos
e a casa se paga aos poucos
devagar mas alegremente há
um escritório às tardes mansas
o café o ouro das janelas a razão
do nosso lado até a vista nos espreita
e dormimos com ela de noite
abraçados ao quente que é
mais miúdos mais fins-de-semana
mais andar a pé e às cavalitas
mais ser senhor do destino e dono da cidade
minto do país que é haver só isto
igrejas velhinhas lixo e eléctricos
ah agora a sinfonia de voltar atrás
andando em frente quem me dera
nunca mais um quem me dera
vive-se vive-se e pronto
há rio e carros e passeios e jardins pobres
e pouco asseio também interessa
não ser tudo bonito e rarefeito
às vezes um cheiro e vem um sem-abrigo
e passa num castigo olá amigo
não há cá abraços esses são para os do vinho
ah não peço mais
as leituras e as guitarras em julho
as janelas ao comprido abertas
esperando que passe alguém e um aplauso mole
tu vais longe tu vais longe
mas a noite é esta e não nos levantamos
enquanto há um riso de vida cheia
e nisto escrevo poemas
neste ninho hodierno
saco versos da batuta
coço a nuca e sou grande
sou um país sou um país
gigante
o poço dos negros
a casa avarandada
um sorriso e as vizinhas são
uma simpatia mas não
nos deixam sequer largar-lhe o cão
à porta e bem pensando
agora que temos dias
luminosos tabaco e jornal
dois pedais e miúdos
um sem cessar de amigos
e a casa se paga aos poucos
devagar mas alegremente há
um escritório às tardes mansas
o café o ouro das janelas a razão
do nosso lado até a vista nos espreita
e dormimos com ela de noite
abraçados ao quente que é
mais miúdos mais fins-de-semana
mais andar a pé e às cavalitas
mais ser senhor do destino e dono da cidade
minto do país que é haver só isto
igrejas velhinhas lixo e eléctricos
ah agora a sinfonia de voltar atrás
andando em frente quem me dera
nunca mais um quem me dera
vive-se vive-se e pronto
há rio e carros e passeios e jardins pobres
e pouco asseio também interessa
não ser tudo bonito e rarefeito
às vezes um cheiro e vem um sem-abrigo
e passa num castigo olá amigo
não há cá abraços esses são para os do vinho
ah não peço mais
as leituras e as guitarras em julho
as janelas ao comprido abertas
esperando que passe alguém e um aplauso mole
tu vais longe tu vais longe
mas a noite é esta e não nos levantamos
enquanto há um riso de vida cheia
e nisto escrevo poemas
neste ninho hodierno
saco versos da batuta
coço a nuca e sou grande
sou um país sou um país
gigante
domingo, 3 de maio de 2015
não há solução para isto
é ficar o corpo tributável no chão
daqui não nascerá nada
nem o rigor do trabalho
nem o burilar poético
nem sangue sequer que preencha os olhos
daqui de nós nem a erva mastigada
não servirá isto para o eterno reavivar dos dentes
este estrume estas maleitas este túmulo
é ficar o corpo arável no chão
não ter pressa dizer tudo
calar sinceramente ainda mais tudo
cumprir a pena sem ódio apenas um
e puro
vê-lo escorrer do céu correr fronteiro a nós
da boca aberta nem a chuva nada disso
valerá tão pouco aquilo de ser prece
de ser um outro dia depois
porque o dia é ser sempre isto
talvez o pouco que nos resta nos engane
é ser sempre e isso latejar-nos sem freio
o pressentir que a letra se fecha
que a mensagem dói mais irrevelada
que o que fica é o espaço do que se perderá
é sabermos que o que foi dito foi já demasiado
isto não finda isto apenas parte
isto não é mais que todas as mães abraçando todos os filhos mortos
não é mais que chegarmos ao fim das estradas para recomeçarmos de novo
é apenas o que já foi feito e alguém pressentiu isto já num tempo remoto
isto que eu trago é o lixo de ter a língua dentro
um órgão apetrechado de sons
um friso a mais para nos perseguir os passos
um tossicar doente a juntar aos outros todos
para quê para isto
para inventar a culpa
para que me lambam os dedos nos óleos sagrados e eu vá depressa
para que me forcem ao suicídio
para que o resultado final não transpareça
e o busquemos contínuo nas vértebras dos outros
para que ele saia das imagens voe nas pulsões
se revele em frémito
e que nada disso aconteça
não há solução para isto
chegamos a casa de alguém que morreu breve e dizemos
daqui não se aproveita nada
mas vamos-lhe às gavetas procurar o pouco decoro
cicatrizes da pobreza unhas de fome cortadas sobre a mesa
o que é isto
o que é operar a decadência
e voltamos a um resto nosso
aquele de ter palavras e de se esgotar nelas
o outro verdadeiro resto não se evade
é na noite o insecto sonante
é à luz mais crua a rua cheia e um crime gigante
ou é chegar a casa cedo e chorar até que sequemos os dedos finais
de tecer mentira
acaba-se um lume que não queima
e é isto acontecer
é ficar o corpo tributável no chão
daqui não nascerá nada
nem o rigor do trabalho
nem o burilar poético
nem sangue sequer que preencha os olhos
daqui de nós nem a erva mastigada
não servirá isto para o eterno reavivar dos dentes
este estrume estas maleitas este túmulo
é ficar o corpo arável no chão
não ter pressa dizer tudo
calar sinceramente ainda mais tudo
cumprir a pena sem ódio apenas um
e puro
vê-lo escorrer do céu correr fronteiro a nós
da boca aberta nem a chuva nada disso
valerá tão pouco aquilo de ser prece
de ser um outro dia depois
porque o dia é ser sempre isto
talvez o pouco que nos resta nos engane
é ser sempre e isso latejar-nos sem freio
o pressentir que a letra se fecha
que a mensagem dói mais irrevelada
que o que fica é o espaço do que se perderá
é sabermos que o que foi dito foi já demasiado
isto não finda isto apenas parte
isto não é mais que todas as mães abraçando todos os filhos mortos
não é mais que chegarmos ao fim das estradas para recomeçarmos de novo
é apenas o que já foi feito e alguém pressentiu isto já num tempo remoto
isto que eu trago é o lixo de ter a língua dentro
um órgão apetrechado de sons
um friso a mais para nos perseguir os passos
um tossicar doente a juntar aos outros todos
para quê para isto
para inventar a culpa
para que me lambam os dedos nos óleos sagrados e eu vá depressa
para que me forcem ao suicídio
para que o resultado final não transpareça
e o busquemos contínuo nas vértebras dos outros
para que ele saia das imagens voe nas pulsões
se revele em frémito
e que nada disso aconteça
não há solução para isto
chegamos a casa de alguém que morreu breve e dizemos
daqui não se aproveita nada
mas vamos-lhe às gavetas procurar o pouco decoro
cicatrizes da pobreza unhas de fome cortadas sobre a mesa
o que é isto
o que é operar a decadência
e voltamos a um resto nosso
aquele de ter palavras e de se esgotar nelas
o outro verdadeiro resto não se evade
é na noite o insecto sonante
é à luz mais crua a rua cheia e um crime gigante
ou é chegar a casa cedo e chorar até que sequemos os dedos finais
de tecer mentira
acaba-se um lume que não queima
e é isto acontecer
sábado, 2 de maio de 2015
onde chego a dizer
o resto
a boca já só a casa preservada
a custo
o ornato dos cabelos a comoção
mais sincera
o fecho do dia uma costura supurando
o que falta
haverá um espaço para se dizer nada
alguém o ouvirá na certeza de um som
a descoberto
porém queimo as agulhas
faço das cartas o segredo
cuspo em modo lento sobre as frontes
uma bênção de catástrofe
queda-se calado o signo
de que servirá tanto magma extinto
tanta rasura lambida a medo
tanta faca bicando o ventre caligráfico
dos outros
ou o riso sincero preenchendo a noite
ou o estar diante e estar
portanto
o resto
a boca já só a casa preservada
a custo
o ornato dos cabelos a comoção
mais sincera
o fecho do dia uma costura supurando
o que falta
haverá um espaço para se dizer nada
alguém o ouvirá na certeza de um som
a descoberto
porém queimo as agulhas
faço das cartas o segredo
cuspo em modo lento sobre as frontes
uma bênção de catástrofe
queda-se calado o signo
de que servirá tanto magma extinto
tanta rasura lambida a medo
tanta faca bicando o ventre caligráfico
dos outros
ou o riso sincero preenchendo a noite
ou o estar diante e estar
portanto
domingo, 26 de abril de 2015
daqui partem muitos comboios
do canto escuro do quarto
do sobrolho levantado
das ondas partem
os dilúvios e as mãos na cabeça
os teus olhos ou lá onde isso fora
onde um daqui partem muito
os confusos os alienados
a farda branca as mãos um nó
o canto escuro do retrato
as janelas sem quartos daqui
onde os amamos
os dilúvios que partem para a espera
do outro lado onde
lá chegar é só isso
uma mão no peito no
meu centro a cabeça dentro sonhando
os teus olhos de onde comboios
partem muitos onde
nunca a estação.
terça-feira, 21 de abril de 2015
cristo disse
a linha da sombra sempre exígua
para retornar a voz ao cume
palavra sincera para a escatologia
e isso não lhe conferiu graves
ao timbre apenas um cigarro consegue
da montanha o sermão gemido
que apascente a peste humana
______________________
ritornelos frígios
sob a manhã
minha mão lenta de incêndio
buscando em límpida hulha
o milagre do corte
ou
risos crimes e acrimónia
trindade dos sete cabelos de salomé
fascículo único divisão separatista
na testa a derisão dos novelos
dizê-lo palavra de honra
é entendê-lo
____________________
o que me custam
os passeios os paninhos os recreios
o que me comem
as boleias as mistelas as panaceias
o que me crivam
os regastes os heróis os tomates
o que me enchem
os ilustres os asfaltos os embustes
Voglio a voltar ao de cima
Ao rente que passe à cara
À experiência poética do per se
Ao dente doentinho em falta
O estar sozinho é estar inteiro
(A boca à tona. O pulmão ao fundo)
a linha da sombra sempre exígua
para retornar a voz ao cume
palavra sincera para a escatologia
e isso não lhe conferiu graves
ao timbre apenas um cigarro consegue
da montanha o sermão gemido
que apascente a peste humana
______________________
ritornelos frígios
sob a manhã
minha mão lenta de incêndio
buscando em límpida hulha
o milagre do corte
ou
risos crimes e acrimónia
trindade dos sete cabelos de salomé
fascículo único divisão separatista
na testa a derisão dos novelos
dizê-lo palavra de honra
é entendê-lo
____________________
o que me custam
os passeios os paninhos os recreios
o que me comem
as boleias as mistelas as panaceias
o que me crivam
os regastes os heróis os tomates
o que me enchem
os ilustres os asfaltos os embustes
Voglio a voltar ao de cima
Ao rente que passe à cara
À experiência poética do per se
Ao dente doentinho em falta
O estar sozinho é estar inteiro
(A boca à tona. O pulmão ao fundo)
domingo, 19 de abril de 2015
e fique assim o erro exposto no papel
erro maior porque visto e consentido
e perdure o erro queimando aceso na noite que é não ter quem o veja
e fiquem as alvíssaras à infância
uma derrota pelo caminho
e eu um limite de som na estrada
pedindo auxílio ao meu filho morto
e fique este cair para fora
osso distante que explode dentro
e a rasura que era o osso no papel
um ritmo a caneta de fogo escuro
e fique a pulso a tinta contida
nunca contada forma de ser gente
e o erro solitário queima porque é mais
erro este som arbitrário este
falar ao lado faltar o chão
porque se nasce sem pés
em forma de boca
erro maior porque visto e consentido
e perdure o erro queimando aceso na noite que é não ter quem o veja
e fiquem as alvíssaras à infância
uma derrota pelo caminho
e eu um limite de som na estrada
pedindo auxílio ao meu filho morto
e fique este cair para fora
osso distante que explode dentro
e a rasura que era o osso no papel
um ritmo a caneta de fogo escuro
e fique a pulso a tinta contida
nunca contada forma de ser gente
e o erro solitário queima porque é mais
erro este som arbitrário este
falar ao lado faltar o chão
porque se nasce sem pés
em forma de boca
importa não morrer
antes ser bom filho
ter as costas um espaço
lento importa não
sofrer por dá cá aquela
falha da alma nos dentes
de quem passa na rua a um
só olho importa não escrever
demasiado o que se sente depois
da água gaseificada plas fontes
do jorro sobra o lábio onde importa
não querer ser mais que as manhãs
ou a correspondente paralisia
importa não saber para nada disto
de que é composta a sopa quem a obrou
quem veio trazer o som antes da boca
ou onde o vestuário do rosto
importa no fim mais o papel
que o tempo e acabar por dizer tudo
sem corpo como se o levasse
o estar inteiro no momento.
para o fim a saliva
importa o projecto em falta
este poema estar aqui e cosido
ao ar que o sustenta
antes ser bom filho
ter as costas um espaço
lento importa não
sofrer por dá cá aquela
falha da alma nos dentes
de quem passa na rua a um
só olho importa não escrever
demasiado o que se sente depois
da água gaseificada plas fontes
do jorro sobra o lábio onde importa
não querer ser mais que as manhãs
ou a correspondente paralisia
importa não saber para nada disto
de que é composta a sopa quem a obrou
quem veio trazer o som antes da boca
ou onde o vestuário do rosto
importa no fim mais o papel
que o tempo e acabar por dizer tudo
sem corpo como se o levasse
o estar inteiro no momento.
para o fim a saliva
importa o projecto em falta
este poema estar aqui e cosido
ao ar que o sustenta
terça-feira, 14 de abril de 2015
um dia chamar-me-ei vento
coisa nenhuma ao entardecer
aí nesse espaço podes vir
roubar a voz permanente
eu um chão sentado para que venhas
e leves o que resta dos meus dentes.
tão triste escrever mal
assim
abrir a frecha do som
pela dobra medíocre
um dia não mais te ver
aí um ponto fundido em dor agulha
para saber que dura pouco
este esquartejar
____________________________________
sozinho o bulício
abrir a perna fechar o estore
ler rente à pele
que emanamos a peste
uma cinza despudorada
enquanto durmo
odeio servir de língua à pátria
e a cabeça em jarro partido um soluço
dizia suplicio
sozinho o
martírio de rojo aos tapetes
escrevo-te para que me esqueças
reforço
o contacto das mãos
sub mesa em erecção
que desperdício
ou falar-te do quanto penso
nos pormenores
outros vincos outras luzes
rápidas palavras para o vazio
tudo isso cansa
não te amar cansa sobretudo
a roupa peganhenta no acto
ao copo o lábio
o triste é ser fodido
e dizê-lo é já um assento quente em sete rios
o real está aqui para desmenti-lo
quer sova deixemos
o rosto intacto
para recebermos todas as manhãs
que ainda nos sobram
______________________________________
não pensem que acaba aqui
bonito e rechonchudo
isto isto coio abjecto corpo rançoso
esta poesia
isto de ser merda
seus merdas
(e isto era desnecessário
olha a moral:
Não o é toda a poesia?).
_____________________________
Agora findo
Assim eu mais triste
Como um desisto.
Vim para a fome.
Disseram espere
Vem aí Quem lha pegue.
E assim dormi.
coisa nenhuma ao entardecer
aí nesse espaço podes vir
roubar a voz permanente
eu um chão sentado para que venhas
e leves o que resta dos meus dentes.
tão triste escrever mal
assim
abrir a frecha do som
pela dobra medíocre
um dia não mais te ver
aí um ponto fundido em dor agulha
para saber que dura pouco
este esquartejar
____________________________________
sozinho o bulício
abrir a perna fechar o estore
ler rente à pele
que emanamos a peste
uma cinza despudorada
enquanto durmo
odeio servir de língua à pátria
e a cabeça em jarro partido um soluço
dizia suplicio
sozinho o
martírio de rojo aos tapetes
escrevo-te para que me esqueças
reforço
o contacto das mãos
sub mesa em erecção
que desperdício
ou falar-te do quanto penso
nos pormenores
outros vincos outras luzes
rápidas palavras para o vazio
tudo isso cansa
não te amar cansa sobretudo
a roupa peganhenta no acto
ao copo o lábio
o triste é ser fodido
e dizê-lo é já um assento quente em sete rios
o real está aqui para desmenti-lo
quer sova deixemos
o rosto intacto
para recebermos todas as manhãs
que ainda nos sobram
______________________________________
não pensem que acaba aqui
bonito e rechonchudo
isto isto coio abjecto corpo rançoso
esta poesia
isto de ser merda
seus merdas
(e isto era desnecessário
olha a moral:
Não o é toda a poesia?).
_____________________________
Agora findo
Assim eu mais triste
Como um desisto.
Vim para a fome.
Disseram espere
Vem aí Quem lha pegue.
E assim dormi.
domingo, 12 de abril de 2015
apresentação ligeira para
os amigos de dentes cerrados
aplauso na algibeira lê-se
o rodapé dos retratos e o lanchinho
preparado pela tarde ressona vem
o moscardo na languidez dar à mansidão
o seu cardo. impera o respeito
mas o silêncio talvez seja outro
o dito e o não feito o que foi e
não deu jeito. acaba-se uma vírgula começa
a enegrecer a carne a tarde diz-se plena
de vazios pequenos destes. absorto olho
a quem está detrás da coisa. diz-se alto o que
depressa se esquece e é certo que
não tenho essa velocidade mental
ou esse estirar de pernas metafísico
que faço questiono-me onde me fica
o fundilho das calças o duríssimo rabo de espera
a comichão na cara rarefeita estirada ao comprido
do descalço onde me fica a sensaboria a razão
e perdido vou levado em barca alheia
digo já com um sorriso e a testa plena
o que não digo a cara cheia de espuma
anuindo à força mas mais assim porque
sem forças todos nós a maré para que remamos
anda cá um abraço já há muito que somos
manos a carne e a unha e tu soube sempre
que tinhas a mais o que eu nunca para estes sítios
demorar-me nesta demora de entretempos
ter a vida feita pela janela um tiro de pombos
eu apenas a lâmpada a rugir em piscadelas
a tosse do outro do lado a rua e a luz
e já te disse que há sempre algo nas janelas
mas eu não o incenso e o oom das velas
vamos amigo e um copo mata o outro
vamos para longe ter na tinta as impressões
que criminoso comparar a litúrgica cirurgia
explanação dos órgãos interiores à mácula
de ser-se humano poeta não só
mais um derivado ou um corpo estranho.
os amigos de dentes cerrados
aplauso na algibeira lê-se
o rodapé dos retratos e o lanchinho
preparado pela tarde ressona vem
o moscardo na languidez dar à mansidão
o seu cardo. impera o respeito
mas o silêncio talvez seja outro
o dito e o não feito o que foi e
não deu jeito. acaba-se uma vírgula começa
a enegrecer a carne a tarde diz-se plena
de vazios pequenos destes. absorto olho
a quem está detrás da coisa. diz-se alto o que
depressa se esquece e é certo que
não tenho essa velocidade mental
ou esse estirar de pernas metafísico
que faço questiono-me onde me fica
o fundilho das calças o duríssimo rabo de espera
a comichão na cara rarefeita estirada ao comprido
do descalço onde me fica a sensaboria a razão
e perdido vou levado em barca alheia
digo já com um sorriso e a testa plena
o que não digo a cara cheia de espuma
anuindo à força mas mais assim porque
sem forças todos nós a maré para que remamos
anda cá um abraço já há muito que somos
manos a carne e a unha e tu soube sempre
que tinhas a mais o que eu nunca para estes sítios
demorar-me nesta demora de entretempos
ter a vida feita pela janela um tiro de pombos
eu apenas a lâmpada a rugir em piscadelas
a tosse do outro do lado a rua e a luz
e já te disse que há sempre algo nas janelas
mas eu não o incenso e o oom das velas
vamos amigo e um copo mata o outro
vamos para longe ter na tinta as impressões
que criminoso comparar a litúrgica cirurgia
explanação dos órgãos interiores à mácula
de ser-se humano poeta não só
mais um derivado ou um corpo estranho.
sexta-feira, 10 de abril de 2015
põe a mão na cara. esconde a cara. revela a escara.
é necessário que se entenda
o cuspo directo no mar é
necessário que se entenda
o papel da transcendência é
necessário que se entenda
a mística dos pacotes de leite é
necessário que se entenda
como estragar um poema é
necessário que se entenda
a pele como manifestação da doença é
necessário que se entenda
o limiar da cumplicidade é
necessário que se entenda
o que permanece e eu fora é
um dia de chuva necessário
que se entenda é o sorriso em lâmina
das estrelas é necessário que se entenda
o quanto falta lá chegar é
necessário que se entenda
isto a coisa é antes de ser
necessário. isto é necessário
que não se entenda.
o cuspo directo no mar é
necessário que se entenda
o papel da transcendência é
necessário que se entenda
a mística dos pacotes de leite é
necessário que se entenda
como estragar um poema é
necessário que se entenda
a pele como manifestação da doença é
necessário que se entenda
o limiar da cumplicidade é
necessário que se entenda
o que permanece e eu fora é
um dia de chuva necessário
que se entenda é o sorriso em lâmina
das estrelas é necessário que se entenda
o quanto falta lá chegar é
necessário que se entenda
isto a coisa é antes de ser
necessário. isto é necessário
que não se entenda.
gostaria de não ter que falar
e que as vozes se calassem
talvez no fundo obrigue à inveja
o silêncio dos que partem
gostaria de não ter que cantar
repetidamente sujo e ignóbil
o que os outros cantam
e no fundo o talvez ser certo
a corrente mística do tédio
a maldição contemporânea do ócio
o ser isto só meu e no fundo urbi et orbi
mas um só meu diferente
antes de vir a ser preso padecer da fome
morrer intocado sentir que o que a pele
me diz foi sempre o sossego
tintura única de cor só e peço
quero descansar onde e do que não mereço
antes de falar que me calem
o jardim o nu em espera
o tempo é ser outro este
é estar sempre longe e ganha-se
ao espaço com uma fractura de dedos
a sorte em espera anuncia:
onde calar essa voz esse resto de ti
para sempre eu meu resto
já só o que deambulou e o que não perco
porque ganhar é na verdade ter lábios
e saber sempre esconder a velhice
onde me despeço é em ti
frase solta e tão já feita percorrida
pela cidade um cinzento em forma de fim
e tu dizes: onde guardar estes dias
ou dizes: não há viver demasiado
mesmo sabendo que já não é o tempo
teu das tuas tarefas semanais dos teus passos
de missa dominical do serviço de percorrer a baixa
nas horas frias
para que me serve isto
a voz em plural a cortina das palavras
a dançar veneno louco à língua
que me impingiram
vou sentar-me onde me cresçam
fundas raízes de não lembrar ninguém
e a poética germinará
para lhe poder amordaçar os cabelos
e que as vozes se calassem
talvez no fundo obrigue à inveja
o silêncio dos que partem
gostaria de não ter que cantar
repetidamente sujo e ignóbil
o que os outros cantam
e no fundo o talvez ser certo
a corrente mística do tédio
a maldição contemporânea do ócio
o ser isto só meu e no fundo urbi et orbi
mas um só meu diferente
antes de vir a ser preso padecer da fome
morrer intocado sentir que o que a pele
me diz foi sempre o sossego
tintura única de cor só e peço
quero descansar onde e do que não mereço
antes de falar que me calem
o jardim o nu em espera
o tempo é ser outro este
é estar sempre longe e ganha-se
ao espaço com uma fractura de dedos
a sorte em espera anuncia:
onde calar essa voz esse resto de ti
para sempre eu meu resto
já só o que deambulou e o que não perco
porque ganhar é na verdade ter lábios
e saber sempre esconder a velhice
onde me despeço é em ti
frase solta e tão já feita percorrida
pela cidade um cinzento em forma de fim
e tu dizes: onde guardar estes dias
ou dizes: não há viver demasiado
mesmo sabendo que já não é o tempo
teu das tuas tarefas semanais dos teus passos
de missa dominical do serviço de percorrer a baixa
nas horas frias
para que me serve isto
a voz em plural a cortina das palavras
a dançar veneno louco à língua
que me impingiram
vou sentar-me onde me cresçam
fundas raízes de não lembrar ninguém
e a poética germinará
para lhe poder amordaçar os cabelos
quinta-feira, 9 de abril de 2015
não é só isto que fica
ficam também
pequenos actos pequenas fricções
pequenos atropelos
a roupa coçada e talvez um aperto
a penúria para ser exacto
a pacatez solar de um dia estagnado
a forma dúctil e prescindível das vozes
o som directo do vício
a bala raspada no peito
o nunca haver balas o peito inteiro ainda
o ritmo sempre o ritmo
cego sempre o ritmo a loucura
dos dentes raspando o ritmo
para ser exacto a fome
em ritmo e também o que fica é isto
o emparedado e a rugosidade do betão
o semelhante também isso o calor mesmo
igual e gritante do outro lado
ficam também
pequenos actos pequenas fricções
pequenos atropelos
a roupa coçada e talvez um aperto
a penúria para ser exacto
a pacatez solar de um dia estagnado
a forma dúctil e prescindível das vozes
o som directo do vício
a bala raspada no peito
o nunca haver balas o peito inteiro ainda
o ritmo sempre o ritmo
cego sempre o ritmo a loucura
dos dentes raspando o ritmo
para ser exacto a fome
em ritmo e também o que fica é isto
o emparedado e a rugosidade do betão
o semelhante também isso o calor mesmo
igual e gritante do outro lado
pretendia o silêncio
e afastei as mãos num jorro
tudo dito tudo feito
a feiura este vidro diurno
uma janela com faces dentro
o longínquo canto do que começa
veio a ser o
silêncio pretendido por dentro
das estações os passageiros
o tempo neles à mão
e a colheita a refrega
tudo isto tudo aceito
onde morar o crime esgotado
portas abertas para o cerco
erro nas contas a esperança do que
não digo como
ler nas frontes o medo a palavra
dor errada aqui sempre
um caminho diferente das mãos
uma rota que diverge e faz dos passeios
a lenta consumação do que se perde
e afastei as mãos num jorro
tudo dito tudo feito
a feiura este vidro diurno
uma janela com faces dentro
o longínquo canto do que começa
veio a ser o
silêncio pretendido por dentro
das estações os passageiros
o tempo neles à mão
e a colheita a refrega
tudo isto tudo aceito
onde morar o crime esgotado
portas abertas para o cerco
erro nas contas a esperança do que
não digo como
ler nas frontes o medo a palavra
dor errada aqui sempre
um caminho diferente das mãos
uma rota que diverge e faz dos passeios
a lenta consumação do que se perde
sexta-feira, 27 de março de 2015
para o olhar
o que fica o que basta
encerrado no opaco
(não terei forças)
assumirei os dedos na terra
(agarrar as pedras por dentro
desbastar o invisível de perto)
um sussurro no imediato
(a força de um eco no vácuo
quem o ouvirá dentro?)
apenas um dia limpo
(por dentro o ar)
---------------------------------------------------------------------
comecemos
as rochas a água os limos
a decomposição negra ao sol
passeemos
nas marés a carne morta das aves
o voo a descoberto na areia
finquemos os pés
juntas as mãos o sangue
a raíz um filamento saliente da boca
pulsemos manhãs
frias gotas de suor raso
a língua a noite o fruto
por dentro comecemos
a chegar de perto aos sítios
discretos onde habitamos
--------------------------------------------------------------------
nuage
cabelo etéreo
por dentro da mão
a carta da doença
perto do grito
ir ali e não voltar mais
o que fica o que basta
encerrado no opaco
(não terei forças)
assumirei os dedos na terra
(agarrar as pedras por dentro
desbastar o invisível de perto)
um sussurro no imediato
(a força de um eco no vácuo
quem o ouvirá dentro?)
apenas um dia limpo
(por dentro o ar)
---------------------------------------------------------------------
comecemos
as rochas a água os limos
a decomposição negra ao sol
passeemos
nas marés a carne morta das aves
o voo a descoberto na areia
finquemos os pés
juntas as mãos o sangue
a raíz um filamento saliente da boca
pulsemos manhãs
frias gotas de suor raso
a língua a noite o fruto
por dentro comecemos
a chegar de perto aos sítios
discretos onde habitamos
--------------------------------------------------------------------
nuage
cabelo etéreo
por dentro da mão
a carta da doença
perto do grito
ir ali e não voltar mais
quarta-feira, 18 de março de 2015
é saber que foi escrita demasiada
que só calar é já isso
que no fundo não há nada que se escreva
que não mude e morra
disse:
aos pontapés também eu quis
um desnorte a extrema unção
as costas uma carga montada
para o desespero
levar pancada desta gente toda
odiar mais para ser mais inocente
e ascender pelas frestas
flutuar o peso aos tombos porque
reparo:
a existir o sacro
é o aqui dentro onde
o cúmplice e o nada
- súbito o poema ferve e redunda
nisto:
a boca serve para sorver
com gosto para se lhe ouvir
com o silêncio circular profundo o
ar nos tubos.
que só calar é já isso
que no fundo não há nada que se escreva
que não mude e morra
disse:
aos pontapés também eu quis
um desnorte a extrema unção
as costas uma carga montada
para o desespero
levar pancada desta gente toda
odiar mais para ser mais inocente
e ascender pelas frestas
flutuar o peso aos tombos porque
reparo:
a existir o sacro
é o aqui dentro onde
o cúmplice e o nada
- súbito o poema ferve e redunda
nisto:
a boca serve para sorver
com gosto para se lhe ouvir
com o silêncio circular profundo o
ar nos tubos.
sexta-feira, 13 de março de 2015
Com horror as horas em pano
Linho desfiado na cara e é um estalo
De vento. Com horror o azul
Com que te sorrio e queimo
A ultima linha de pensamento
Nada vale tanto como a corda retesada
O veloz laminar do lençol gigante
Contra o olho um corte amaciado de prece
Em dia de luz passo concreto para o sincero
Cegar das fontes.
Linho desfiado na cara e é um estalo
De vento. Com horror o azul
Com que te sorrio e queimo
A ultima linha de pensamento
Nada vale tanto como a corda retesada
O veloz laminar do lençol gigante
Contra o olho um corte amaciado de prece
Em dia de luz passo concreto para o sincero
Cegar das fontes.
A primeira ingenuidade: a idade
Foi de falar puro que não te olhei
(Na altura os olhos partidos de vidro)
E nem sequer um sopro um dia em
Que o teu nome nascesse
Janela aberta para os quintais
Como nasce o que vem antes
Do dia das coisas de ser dia onde
Há apenas a presença
Preenchendo pelos rios o desespero
Do que corre para saber ser fim.
Ainda o teu cheiro como quem
Chegou antes de si. Veio
A um mundo e era menos agora
Que completo o sentido.
Haveria ao longe a paisagem
Servindo aos olhos o resto.
Foi de falar puro que não te olhei
(Na altura os olhos partidos de vidro)
E nem sequer um sopro um dia em
Que o teu nome nascesse
Janela aberta para os quintais
Como nasce o que vem antes
Do dia das coisas de ser dia onde
Há apenas a presença
Preenchendo pelos rios o desespero
Do que corre para saber ser fim.
Ainda o teu cheiro como quem
Chegou antes de si. Veio
A um mundo e era menos agora
Que completo o sentido.
Haveria ao longe a paisagem
Servindo aos olhos o resto.
domingo, 8 de março de 2015
caro leitor:
vamos explicar essa febre
os lábios arreganhados e uma vontade súbita
de um amanhã com horas gastas.
há quanto tempo não escreve? há quanto tempo não ferve
nem faz carícias da pior espécie
no travo humano dos versículos na estante?
há quanto tempo um relaxe muscular e um grito em surdina
o dia inteiro a estragar o dia inteiro
a pôr-lhe sal no osso da língua meio destra meio vesga
meio cega já só um pedacinho de carne e também vazia
há quanto
é ainda campeão de um extraordinário furor entre os curvados
e há quanto
a loucura ainda lhe disse um adeus amor volto logo
porque e reflicta nisto caro leitor
não há assim tanta espécie de ódio no mundo
e o seu até nem é do mais variegado é apenas isso
um ódio modo de comichão ou perna dorida de tanto andar tão pouco
um pudor ou o arremedo do pudor na ponta dos dedos
e diga porque não se esgana e volta e meia também não
se tenta na arte do nó na garganta ou naquela bem conhecida
em fascículos e às mijinhas
a do veneno da lascívia e beba um trago outro daí em diante
os dias ficarão menos mas melhores
e saberá que ferver por pouco até pelo que dizem é desumano
e que o seu rigor mortis antecipado é apenas demais no rançoso
de menos no rigoroso
vá expulse a questão isso sofre-lhe e creio que é esta
"porque haveremos sempre de tocar a face do medo"
pois lhe digo falta-lhe aí uma face
um ser estranho à esquina olhando para a outra rua
e de súbito para este lado e não é para este lado
é para mim quer dizer para si
e esse ser mais belo agora que estranho é-lhe isso
desfigurado e profundamente temido
quase lhe sentindo o cheiro aproxima-se
você daquilo mas aquilo vê através
com que olhos não sei mas vê
e você leitor sabe que é aí que morre
desta vez verdadeiramente faça-se-lhe justiça
há muito que ansiava esta a morte derradeira
mas não esta de quem olha a uma esquina sendo noite
e estando gente e menos gente que noite mas mesmo assim
muito mundo em volta e um calor interminável do peito aos dedos
mas uns olhos só olhos e através
e a si leitor ferve-lhe a palavra não dita
é dali que brota o veneno nocturno e o oceano pulsando aos pés da cama
no tecto olhando lúgubre o lugar da face sem face dentro desse lugar
o leitor apaixonado pelos próprios dedos
eles amando o leitor e agarrando-lhe o pescoço
já é hora já é hora
e apaga-se o crime.
queira o silêncio e ame-o no maior
despojamento.
vamos explicar essa febre
os lábios arreganhados e uma vontade súbita
de um amanhã com horas gastas.
há quanto tempo não escreve? há quanto tempo não ferve
nem faz carícias da pior espécie
no travo humano dos versículos na estante?
há quanto tempo um relaxe muscular e um grito em surdina
o dia inteiro a estragar o dia inteiro
a pôr-lhe sal no osso da língua meio destra meio vesga
meio cega já só um pedacinho de carne e também vazia
há quanto
é ainda campeão de um extraordinário furor entre os curvados
e há quanto
a loucura ainda lhe disse um adeus amor volto logo
porque e reflicta nisto caro leitor
não há assim tanta espécie de ódio no mundo
e o seu até nem é do mais variegado é apenas isso
um ódio modo de comichão ou perna dorida de tanto andar tão pouco
um pudor ou o arremedo do pudor na ponta dos dedos
e diga porque não se esgana e volta e meia também não
se tenta na arte do nó na garganta ou naquela bem conhecida
em fascículos e às mijinhas
a do veneno da lascívia e beba um trago outro daí em diante
os dias ficarão menos mas melhores
e saberá que ferver por pouco até pelo que dizem é desumano
e que o seu rigor mortis antecipado é apenas demais no rançoso
de menos no rigoroso
vá expulse a questão isso sofre-lhe e creio que é esta
"porque haveremos sempre de tocar a face do medo"
pois lhe digo falta-lhe aí uma face
um ser estranho à esquina olhando para a outra rua
e de súbito para este lado e não é para este lado
é para mim quer dizer para si
e esse ser mais belo agora que estranho é-lhe isso
desfigurado e profundamente temido
quase lhe sentindo o cheiro aproxima-se
você daquilo mas aquilo vê através
com que olhos não sei mas vê
e você leitor sabe que é aí que morre
desta vez verdadeiramente faça-se-lhe justiça
há muito que ansiava esta a morte derradeira
mas não esta de quem olha a uma esquina sendo noite
e estando gente e menos gente que noite mas mesmo assim
muito mundo em volta e um calor interminável do peito aos dedos
mas uns olhos só olhos e através
e a si leitor ferve-lhe a palavra não dita
é dali que brota o veneno nocturno e o oceano pulsando aos pés da cama
no tecto olhando lúgubre o lugar da face sem face dentro desse lugar
o leitor apaixonado pelos próprios dedos
eles amando o leitor e agarrando-lhe o pescoço
já é hora já é hora
e apaga-se o crime.
queira o silêncio e ame-o no maior
despojamento.
quinta-feira, 5 de março de 2015
as mãos
adereço síncrono do corpo
procurando debaixo das roupas
prometendo debaixo da pele
um limite uma falha
nos apetrechos dos afectos
o sentido ínvio do resto
as mãos não são mãos apenas
unhas raspando o crânio quieto
da terra
um silêncio percutido rente à cara
a unha do silêncio em brecha
amante dentro dos edifícios inabitados
no silêncio das madrugadas
as mãos dadas até ao corte
descubro as mãos
contra a luz as minhas mãos
não são minhas apenas
a pele que lhes emprestaste
o rasto iníquo do teu calor
uma mancha ainda a rua um perfume
secretamente o som díficil de uma veia
bebendo a custo
o êmbolo deslizante da pulsação.
adereço síncrono do corpo
procurando debaixo das roupas
prometendo debaixo da pele
um limite uma falha
nos apetrechos dos afectos
o sentido ínvio do resto
as mãos não são mãos apenas
unhas raspando o crânio quieto
da terra
um silêncio percutido rente à cara
a unha do silêncio em brecha
amante dentro dos edifícios inabitados
no silêncio das madrugadas
as mãos dadas até ao corte
descubro as mãos
contra a luz as minhas mãos
não são minhas apenas
a pele que lhes emprestaste
o rasto iníquo do teu calor
uma mancha ainda a rua um perfume
secretamente o som díficil de uma veia
bebendo a custo
o êmbolo deslizante da pulsação.
sábado, 28 de fevereiro de 2015
nem sequer o ódio
nem sequer a palavra é um ódio
nem sequer eu sou um filho
nem todos temos o futuro nos dentes.
ouve
eu canto-te o signo das coisas ao ouvido
o futuro ingénuo dos passos arrítmicos
o quanto me debruço nas arestas
do teu corpo.
pendo da fome
de morrer hoje
muito mais depressa do que queria
do que um amanhã que nasça em sol morno
do que ouvir-te balbuciar as vontades
a maresia
e escondo um olhar para o rio
a visão nefasta de um dia pleno
a voz tanta
irrigada de sangue
prenunciada de um aroma mais silente
o amor à carne apodrecida
este abraço que te dou eterno
até que nos doa
o limite dos dedos.
o vento ressoa na ilusão de um poema
como queres que te diga
o corpo dobra-se de dor neste cuspo amargo
um lençol genital enrolado a uma prece
como queres que te diga
o lábil conselho dos minérios
a tua pele de magma descosendo-se
ao tacto das flores etéreas do silêncio.
deixa que te beije
obscuramente o rosto
num arremesso a brutalidade
com que te velo.
deixa que te sinta
o canto fremente das artérias
a palavra ódio irrigada na tua língua
o aspergir das sombras dentro do teu verbo.
queimo-me dentro deste jacto
sonífero onde direi o teu nome
arregaçando a pele que jaz dentro
do corpo móbil da palavra.
o quanto te quero
um fio de lava e de eterno
desenhando-nos os olhos
as mãos o torpor leve
da cama a medo.
espreita como o dia se desenha
agreste nas janelas.
na minha boca a tua pele
canta uma rua inteira de som.
sei que te perco
e cumpro.
nem sequer a palavra é um ódio
nem sequer eu sou um filho
nem todos temos o futuro nos dentes.
ouve
eu canto-te o signo das coisas ao ouvido
o futuro ingénuo dos passos arrítmicos
o quanto me debruço nas arestas
do teu corpo.
pendo da fome
de morrer hoje
muito mais depressa do que queria
do que um amanhã que nasça em sol morno
do que ouvir-te balbuciar as vontades
a maresia
e escondo um olhar para o rio
a visão nefasta de um dia pleno
a voz tanta
irrigada de sangue
prenunciada de um aroma mais silente
o amor à carne apodrecida
este abraço que te dou eterno
até que nos doa
o limite dos dedos.
o vento ressoa na ilusão de um poema
como queres que te diga
o corpo dobra-se de dor neste cuspo amargo
um lençol genital enrolado a uma prece
como queres que te diga
o lábil conselho dos minérios
a tua pele de magma descosendo-se
ao tacto das flores etéreas do silêncio.
deixa que te beije
obscuramente o rosto
num arremesso a brutalidade
com que te velo.
deixa que te sinta
o canto fremente das artérias
a palavra ódio irrigada na tua língua
o aspergir das sombras dentro do teu verbo.
queimo-me dentro deste jacto
sonífero onde direi o teu nome
arregaçando a pele que jaz dentro
do corpo móbil da palavra.
o quanto te quero
um fio de lava e de eterno
desenhando-nos os olhos
as mãos o torpor leve
da cama a medo.
espreita como o dia se desenha
agreste nas janelas.
na minha boca a tua pele
canta uma rua inteira de som.
sei que te perco
e cumpro.
aproximações de março ou o exercício do ego
28 Fevereiro 2015
os dias sórdidos habitam às janelas
e eu vejo no caudal da limpidez
madrugadas maiores.
ou minto. e sei nisso instância superior.
ou mato a inocência do gesto
com um passo fúnebre de canibal.
a autofagia está presente
o crime não.
mulher louca à porta dos cafés
mulher azul fenómeno sensível
em escala de mercali
mulher só esperando filhos
ainda um útero esta mulher
ainda só um nervo antes do nervo
ressuscitado antes da dor de ver partir
mulher sincera enfrenta a própria carne
mulher que diz o mundo quebrou o meu cântaro
o chão é o desejo sincero.
como se amasse.
como se honestamente quebrasse cada osso dos meus dedos
cada dedo nos meus lábios cada um dançando
o orvalho que é ter-te assim perto. como se
a água que escorre dos cabelos adormecidos dos homens
voltasse e fosse o cântaro inteiro.
fome de crença.
a idade.
houve quem lhe quisesse comer filhos
disse: a podridão afasta mas não trai.
ouço como quem quisesse ser
fruto de um amor convalescente.
ouço menos ouço pior
ouço a dança dos dedos ao balcão
a marcar a espera ou a presença
ouço a tarde dentro de uma esfera
e o rio convexo por dentro deste passeio.
estou na laboração dos venenos
um passo atrás.
sou sincero
não conheço forma de estar vivo
desnecessariamente digo as casas e as coisas
mas são o postiço doado pela luz
pela ferrugem das pálpebras cintilando por dentro.
queria dizer mais até
a intempérie dos cortes
a obliquidade dos olhos cristalizados em fé
mas é deste azul que desconfio
é um largo ébrio e frio apinhado
de gente antes de ser gente
o meu pulmão cheio de vidro
cintilando numa forma de escuro
à urgência do ar vazio.
1 de Março de 2015
suspeita-se que há um fim
e é dessa forma que prenuncio os dias.
quer-se uma mão separada contra o sol
um dilúvio de mãos na madrugada
que aclare os passos da manhã
com o dom luminoso da violência.
por mais que corra
com a vista os bairros cansados
e lhes descubra o sorriso cadente
nas entranhas
por mais que caia
terei sempre uma falta inteira
um sentido de corpo grave
junto ao solo o queixo raspando
a profecia dos idiotas.
aproxima-se o dia
retirado
por entre as falanges
e tapo o sol com as mãos separadas
do resto
a cara um detalhe
no caudal afogado de um rio de semanas.
se te cumpro
tempo
é para te ler aos poucos
vincos no rosto
detalhes possíveis da falência dos órgãos
a sílaba destinada aos que ficam
sem sucesso.
2 de Março de 2015
a língua nua
sulcando o contorno das bermas
sinto-me como se bebesse
em excesso
o matiz descarnado
da geografia possível.
ou
um devir
um florir dentro das mãos
uma árvore engordando o fruto
um inchaço na pele
do tamanho da carne pálida
completa.
aperto o crime
entre dois dedos
e um cuspo fino invade-lhe
o mosto.
mistura-se languidamente a palavra com a língua
e há uma curva de coalho sujo
onde a maré subindo-te a perna.
permite-se a luz novamente
na abertura
por onde regressam incessantes
os dedos volúveis do mistério.
4 de Março de 2015
reparo na medida do sol
crescente na janela
e sei um ano
transladado noutro.
a marca do calor na pele
como um veneno escorrendo
verdade pelos poros
vai insuflando aos poucos
uma inércia. vai queimando
de pavor a veia prematura
do inverno.
digo-te
adeus ao longe
a estação do outro lado
do peito. depois
vou ser outro.
porque há um dia sem cheiro
onde só permanece a lágrima fulgente
da palavra.
do que nunca te disse:
flutua sublime no ar um corpo
e desconheço-lhe os traços o nome
as terminações concretas dos dedos e
o fruto desabrochante do rosto.
entre mim e o meu resto
o espaço vivo desse corpo
que dorme pulsando apenas
pela língua o Espírito Fechado.
-----------
outro dia outra coisa
virá em meu nome
fechar os cadernos.
(luz difusa)
os dias sórdidos habitam às janelas
e eu vejo no caudal da limpidez
madrugadas maiores.
ou minto. e sei nisso instância superior.
ou mato a inocência do gesto
com um passo fúnebre de canibal.
a autofagia está presente
o crime não.
mulher louca à porta dos cafés
mulher azul fenómeno sensível
em escala de mercali
mulher só esperando filhos
ainda um útero esta mulher
ainda só um nervo antes do nervo
ressuscitado antes da dor de ver partir
mulher sincera enfrenta a própria carne
mulher que diz o mundo quebrou o meu cântaro
o chão é o desejo sincero.
como se amasse.
como se honestamente quebrasse cada osso dos meus dedos
cada dedo nos meus lábios cada um dançando
o orvalho que é ter-te assim perto. como se
a água que escorre dos cabelos adormecidos dos homens
voltasse e fosse o cântaro inteiro.
fome de crença.
a idade.
houve quem lhe quisesse comer filhos
disse: a podridão afasta mas não trai.
ouço como quem quisesse ser
fruto de um amor convalescente.
ouço menos ouço pior
ouço a dança dos dedos ao balcão
a marcar a espera ou a presença
ouço a tarde dentro de uma esfera
e o rio convexo por dentro deste passeio.
estou na laboração dos venenos
um passo atrás.
sou sincero
não conheço forma de estar vivo
desnecessariamente digo as casas e as coisas
mas são o postiço doado pela luz
pela ferrugem das pálpebras cintilando por dentro.
queria dizer mais até
a intempérie dos cortes
a obliquidade dos olhos cristalizados em fé
mas é deste azul que desconfio
é um largo ébrio e frio apinhado
de gente antes de ser gente
o meu pulmão cheio de vidro
cintilando numa forma de escuro
à urgência do ar vazio.
1 de Março de 2015
suspeita-se que há um fim
e é dessa forma que prenuncio os dias.
quer-se uma mão separada contra o sol
um dilúvio de mãos na madrugada
que aclare os passos da manhã
com o dom luminoso da violência.
por mais que corra
com a vista os bairros cansados
e lhes descubra o sorriso cadente
nas entranhas
por mais que caia
terei sempre uma falta inteira
um sentido de corpo grave
junto ao solo o queixo raspando
a profecia dos idiotas.
aproxima-se o dia
retirado
por entre as falanges
e tapo o sol com as mãos separadas
do resto
a cara um detalhe
no caudal afogado de um rio de semanas.
se te cumpro
tempo
é para te ler aos poucos
vincos no rosto
detalhes possíveis da falência dos órgãos
a sílaba destinada aos que ficam
sem sucesso.
2 de Março de 2015
a língua nua
sulcando o contorno das bermas
sinto-me como se bebesse
em excesso
o matiz descarnado
da geografia possível.
ou
um devir
um florir dentro das mãos
uma árvore engordando o fruto
um inchaço na pele
do tamanho da carne pálida
completa.
aperto o crime
entre dois dedos
e um cuspo fino invade-lhe
o mosto.
mistura-se languidamente a palavra com a língua
e há uma curva de coalho sujo
onde a maré subindo-te a perna.
permite-se a luz novamente
na abertura
por onde regressam incessantes
os dedos volúveis do mistério.
4 de Março de 2015
reparo na medida do sol
crescente na janela
e sei um ano
transladado noutro.
a marca do calor na pele
como um veneno escorrendo
verdade pelos poros
vai insuflando aos poucos
uma inércia. vai queimando
de pavor a veia prematura
do inverno.
digo-te
adeus ao longe
a estação do outro lado
do peito. depois
vou ser outro.
porque há um dia sem cheiro
onde só permanece a lágrima fulgente
da palavra.
do que nunca te disse:
flutua sublime no ar um corpo
e desconheço-lhe os traços o nome
as terminações concretas dos dedos e
o fruto desabrochante do rosto.
entre mim e o meu resto
o espaço vivo desse corpo
que dorme pulsando apenas
pela língua o Espírito Fechado.
-----------
outro dia outra coisa
virá em meu nome
fechar os cadernos.
(luz difusa)
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015
como desculpar-me
se estes pés são meus
e minhas a ruas por debaixo deles
e no fundo um amargo na boca
de tanto ar nefasto respirado
é também meu em goles
e nunca aprendi a dizer um não sequer
um vai-te foder à vida
quando o que me prometiam era andar
para conhecer os sítios comuns
onde o calor geral e a pele desperdiçada
se acumulam em montículos de dor
e de anos que já passaram por outros
tantos anos na rua e um ombro contra
um ombro não mais do que isso
alguém que conte o tempo e verá
os choques simétricos e os ombros
fingindo tocarem-se apenas
não se tocando abrindo-se
numa ginástica absurda de medo.
este eu testamentário que fala
até às tantas com os ombros dos anos
não sabe quem fica do comum dos passos
para contar uma história que seja verdadeiramente
a correcta e talvez aquela que mais passos
dê ao mundo. a cada milénio de passos
nasce uma nova cidade
e nasce a tua boca por detrás dos canteiros
sussurrando a minha dor de costas e o meu
enjoo permanente quasi-modo de morrer
horizontal pelas pedras. e nesses passeios
ornados a ti não há rostos nem há
o singelo passar do escarro da pessoa doente
do cheiro que exalam os olhos dos outros
diante dos meus olhos. há apenas
a cidade vazia com o seu som múltiplo dos passos dentro
e há aí acredita um núcleo de silêncio
um respirar debaixo de água em
não te ver nem
sofrer qualquer manhã recente.
nunca mais um ódio e a vida repetível
creio apenas
uma mão adormecida
ou um corpo inteiro dormente.
se estes pés são meus
e minhas a ruas por debaixo deles
e no fundo um amargo na boca
de tanto ar nefasto respirado
é também meu em goles
e nunca aprendi a dizer um não sequer
um vai-te foder à vida
quando o que me prometiam era andar
para conhecer os sítios comuns
onde o calor geral e a pele desperdiçada
se acumulam em montículos de dor
e de anos que já passaram por outros
tantos anos na rua e um ombro contra
um ombro não mais do que isso
alguém que conte o tempo e verá
os choques simétricos e os ombros
fingindo tocarem-se apenas
não se tocando abrindo-se
numa ginástica absurda de medo.
este eu testamentário que fala
até às tantas com os ombros dos anos
não sabe quem fica do comum dos passos
para contar uma história que seja verdadeiramente
a correcta e talvez aquela que mais passos
dê ao mundo. a cada milénio de passos
nasce uma nova cidade
e nasce a tua boca por detrás dos canteiros
sussurrando a minha dor de costas e o meu
enjoo permanente quasi-modo de morrer
horizontal pelas pedras. e nesses passeios
ornados a ti não há rostos nem há
o singelo passar do escarro da pessoa doente
do cheiro que exalam os olhos dos outros
diante dos meus olhos. há apenas
a cidade vazia com o seu som múltiplo dos passos dentro
e há aí acredita um núcleo de silêncio
um respirar debaixo de água em
não te ver nem
sofrer qualquer manhã recente.
nunca mais um ódio e a vida repetível
creio apenas
uma mão adormecida
ou um corpo inteiro dormente.
terça-feira, 10 de fevereiro de 2015
sábado, 7 de fevereiro de 2015
contar-te-ei dos dias em que escrevi coisas severamente belas e não soube nunca onde as deixei
aos legítimos detentores das palavras
passando esse peso é hora
de ter mãos que escrevam
e se digo a casa líquida dentro
de um espelho onde tu e onde não
te vejo
só sei a madrugada
a falta nenhuma de um lugar
e toda de uma palavra
-------------------------------
silenciando do suplício das pedras
as mãos porque minhas
chego a um novo ódio de ser espaço.
uma penugem de cinza
por dentro das veias
segregando a presença física
dos dias imprecisos.
-------------------------------
escreverei pior a cada tempo
como um século em espera nas cabines
e tenho o medo digno da espécie
um rasto mais matéria minha que rasto
uma vontade outra já não
nunca esta. para
que passe o vento e digam ter sido isso
a história.
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015
venho do horário defunto dos teus passos
marcando a amplidão difusa de uma manhã
inertemente suja.
jamais solidão alguma assim
(2 dias antes)
como grande pássaro penetrando em bicos pelas nucas
a véspera de sermos foi tão só esta rajada abrupta
e para sobrar a lenta carne parida a custo
tendes-me aqui senhor ao serviço dos estultos
(30 segundos depois)
não mais servirei senhor que possa morrer
disse-lhes em surdina e era tão só eco mudo pois nós
todos os filmes ecos imagens representações dos que vieram
antes
(anos mais tarde, não totalmente todos os anos mais tarde mas quase todos os anos mais tarde)
hei-de levar comigo a prosa
forro de colchão para velhos
andarilho de línguas para a cegueira
um conto no jardim da parada
entre salivadas de placa suja
e tu olho de soslaio abrindo a catarata
vens tarde com a rapidez dos iníquos
abrir uma porta latejante na dormência
onde crime algum suspira já só
a liberdade de ter tardes pagas e arrotadas.
a linguística uma curva lá atrás
e deixada pelo caminho a vontade ainda despida.
de que me servem os cantos de luz e os espaços
se tenho a honra de não ter sido mais que a soma dos meus cansaços.
marcando a amplidão difusa de uma manhã
inertemente suja.
jamais solidão alguma assim
(2 dias antes)
como grande pássaro penetrando em bicos pelas nucas
a véspera de sermos foi tão só esta rajada abrupta
e para sobrar a lenta carne parida a custo
tendes-me aqui senhor ao serviço dos estultos
(30 segundos depois)
não mais servirei senhor que possa morrer
disse-lhes em surdina e era tão só eco mudo pois nós
todos os filmes ecos imagens representações dos que vieram
antes
(anos mais tarde, não totalmente todos os anos mais tarde mas quase todos os anos mais tarde)
hei-de levar comigo a prosa
forro de colchão para velhos
andarilho de línguas para a cegueira
um conto no jardim da parada
entre salivadas de placa suja
e tu olho de soslaio abrindo a catarata
vens tarde com a rapidez dos iníquos
abrir uma porta latejante na dormência
onde crime algum suspira já só
a liberdade de ter tardes pagas e arrotadas.
a linguística uma curva lá atrás
e deixada pelo caminho a vontade ainda despida.
de que me servem os cantos de luz e os espaços
se tenho a honra de não ter sido mais que a soma dos meus cansaços.
sábado, 31 de janeiro de 2015
confiteor dos palermas
passo ao lado da pessoa amiga da manifestação no terreiro
do prazo prometido e do lugar no poleiro
rimei e sem saber como o fiz deito-me de bruços
qu'inda agora indaguei o quanto me cumpro
o quanto me cumpro.
traí-me com a do terceiro esquerdo
e sou jovem já não escrevo poesia
o tempo de uma visão rés-vés campo de ourique
o cosmopolitismo a encimar o chique
já não habita nem fode nem fuma
nem já só fede atrás da porta
a presença longínqua de uma noite
em mangas de camisa peito aberto
e chama na ponta da língua.
todo este baptistério para os amaldiçoados.
fui-me para férias levo-me à perna e em montra
para o lugar mais perto que conheço
para me confiscar bens e terças e torcionários
e ficar nu e sujo porque mais nu e cada vez mais sujo
do que dantes que dantes é que era bom
e dantes comia três à vez e ainda arrotava com gosto no fim
e porque diziam no fim estaremos cá para te aplaudir ó janota
a ti e aos da tua súcia à batota pelos teoremas com
caos e cordas e misturas de farinhas para o apetite.
ai meu deus e minha cabeça a rebentar de som
que foi que fiz que foi que comi ontem
que foi que mandei hoje pelo ar e sanita abaixo
amor acima que foi que deixei para trás
antes de te conhecer um rosto sem brisa e só véu
a noiva plagente mas fixa no meu queixo inexistente
e eu quedo de respiração arrazoada
em ziguezague tosco com os olhos em chamas
por te conhecer eu ainda sóbrio e tão novo de gaguezes
ai que foi que fiz para te merecer antes que dissessem
finis esta merda toda desçam o pano vão para casa
e morram. bem gostava que mo dissessem
secretamente e até com uma pitada sensual de arma branca
mas só resta ai e porquê uma perna à deriva
a outra na cama porque tudo é acordar tarde
para nunca voltar a lamber nas manhãs o vício do começos.
do prazo prometido e do lugar no poleiro
rimei e sem saber como o fiz deito-me de bruços
qu'inda agora indaguei o quanto me cumpro
o quanto me cumpro.
traí-me com a do terceiro esquerdo
e sou jovem já não escrevo poesia
o tempo de uma visão rés-vés campo de ourique
o cosmopolitismo a encimar o chique
já não habita nem fode nem fuma
nem já só fede atrás da porta
a presença longínqua de uma noite
em mangas de camisa peito aberto
e chama na ponta da língua.
todo este baptistério para os amaldiçoados.
fui-me para férias levo-me à perna e em montra
para o lugar mais perto que conheço
para me confiscar bens e terças e torcionários
e ficar nu e sujo porque mais nu e cada vez mais sujo
do que dantes que dantes é que era bom
e dantes comia três à vez e ainda arrotava com gosto no fim
e porque diziam no fim estaremos cá para te aplaudir ó janota
a ti e aos da tua súcia à batota pelos teoremas com
caos e cordas e misturas de farinhas para o apetite.
ai meu deus e minha cabeça a rebentar de som
que foi que fiz que foi que comi ontem
que foi que mandei hoje pelo ar e sanita abaixo
amor acima que foi que deixei para trás
antes de te conhecer um rosto sem brisa e só véu
a noiva plagente mas fixa no meu queixo inexistente
e eu quedo de respiração arrazoada
em ziguezague tosco com os olhos em chamas
por te conhecer eu ainda sóbrio e tão novo de gaguezes
ai que foi que fiz para te merecer antes que dissessem
finis esta merda toda desçam o pano vão para casa
e morram. bem gostava que mo dissessem
secretamente e até com uma pitada sensual de arma branca
mas só resta ai e porquê uma perna à deriva
a outra na cama porque tudo é acordar tarde
para nunca voltar a lamber nas manhãs o vício do começos.
poema em modo frígio
rosas rosas rosas
a seiva mental por debaixo
da pleura diurna das
rosas rosas rosas
um motivo resiliente
um dedo exangue de sol sobre a testa
canto oblíquo de uma fonte
jacente dentro do milagre azul
da retina. em espinho me quis
o ventre agudo da terra
mas se penso nisso
no quanto ainda me cabe de fôlego
de empenho sujo orbitando pelas manhãs
de lágrima fendida percorrendo a casta sem mãos
mas se penso nisso
suspenso na pálida aresta dos jazigos
sempre sobra um rosto sem expressão
um alvar luminoso e aberto
para onde fugir quando não restar
mais lume fosco na lentidão.
a seiva mental por debaixo
da pleura diurna das
rosas rosas rosas
um motivo resiliente
um dedo exangue de sol sobre a testa
canto oblíquo de uma fonte
jacente dentro do milagre azul
da retina. em espinho me quis
o ventre agudo da terra
mas se penso nisso
no quanto ainda me cabe de fôlego
de empenho sujo orbitando pelas manhãs
de lágrima fendida percorrendo a casta sem mãos
mas se penso nisso
suspenso na pálida aresta dos jazigos
sempre sobra um rosto sem expressão
um alvar luminoso e aberto
para onde fugir quando não restar
mais lume fosco na lentidão.
segunda-feira, 5 de janeiro de 2015
enquanto isso havemos de ser felizes
a vida não dada as mãos sim
ter inspiração nenhuma
acabar de cama e os pés no primeiro
sítio em que nascemos de facto
porque enquanto isso haverão
rastos da saliva dos dias indicando
as mãos sim apontando um
depois o outro algures
encontro falhado dos milagres
e no entanto a estação
sucedendo-se a outra estação
abertas as mãos sim
tão já secura e sem dedos
vivemos e até houve um quarto alugado
dias cheios jornais e empregos
por isso a vida sim não esta não dada
as mãos no entanto outra coisa
apenas frias e dentro longe
como se tudo isto a certeza de um rasto
atrás dele um fim e um destino empurrando
em dentes cerrados este janeiro num
vai e que te fodas que não perdoa
não sem antes as mãos
a vida não a vida veio
querem-me dizer esteve aqui já saiu
e eu que faço com isto
filho morto nas mãos ou carcaça
por enquanto nada disto e entretanto
tudo isto passa.
a vida não dada as mãos sim
ter inspiração nenhuma
acabar de cama e os pés no primeiro
sítio em que nascemos de facto
porque enquanto isso haverão
rastos da saliva dos dias indicando
as mãos sim apontando um
depois o outro algures
encontro falhado dos milagres
e no entanto a estação
sucedendo-se a outra estação
abertas as mãos sim
tão já secura e sem dedos
vivemos e até houve um quarto alugado
dias cheios jornais e empregos
por isso a vida sim não esta não dada
as mãos no entanto outra coisa
apenas frias e dentro longe
como se tudo isto a certeza de um rasto
atrás dele um fim e um destino empurrando
em dentes cerrados este janeiro num
vai e que te fodas que não perdoa
não sem antes as mãos
a vida não a vida veio
querem-me dizer esteve aqui já saiu
e eu que faço com isto
filho morto nas mãos ou carcaça
por enquanto nada disto e entretanto
tudo isto passa.
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