segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

como desculpar-me
se estes pés são meus
e minhas a ruas por debaixo deles
e no fundo um amargo na boca
de tanto ar nefasto respirado
é também meu em goles
e nunca aprendi a dizer um não sequer
um vai-te foder à vida
quando o que me prometiam era andar
para conhecer os sítios comuns
onde o calor geral e a pele desperdiçada
se acumulam em montículos de dor
e de anos que já passaram por outros
tantos anos na rua e um ombro contra
um ombro não mais do que isso
alguém que conte o tempo e verá
os choques simétricos e os ombros
fingindo tocarem-se apenas
não se tocando abrindo-se
numa ginástica absurda de medo.
este eu testamentário que fala
até às tantas com os ombros dos anos
não sabe quem fica do comum dos passos
para contar uma história que seja verdadeiramente
a correcta e talvez aquela que mais passos
dê ao mundo. a cada milénio de passos
nasce uma nova cidade
e nasce a tua boca por detrás dos canteiros
sussurrando a minha dor de costas e o meu
enjoo permanente quasi-modo de morrer
horizontal pelas pedras. e nesses passeios
ornados a ti não há rostos nem há
o singelo passar do escarro da pessoa doente
do cheiro que exalam os olhos dos outros
diante dos meus olhos. há apenas
a cidade vazia com o seu som múltiplo dos passos dentro
e há aí acredita um núcleo de silêncio
um respirar debaixo de água em
não te ver nem
sofrer qualquer manhã recente.
nunca mais um ódio e a vida repetível
creio apenas
uma mão adormecida
ou um corpo inteiro dormente.

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