quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

venho do horário defunto dos teus passos
marcando a amplidão difusa de uma manhã
inertemente suja.
jamais solidão alguma assim

(2 dias antes)

como grande pássaro penetrando em bicos pelas nucas
a véspera de sermos foi tão só esta rajada abrupta
e para sobrar a lenta carne parida a custo
tendes-me aqui senhor ao serviço dos estultos

(30 segundos depois)

não mais servirei senhor que possa morrer
disse-lhes em surdina e era tão só eco mudo pois nós
todos os filmes ecos imagens representações dos que vieram
antes

(anos mais tarde, não totalmente todos os anos mais tarde mas quase todos os anos mais tarde)

hei-de levar comigo a prosa
forro de colchão para velhos
andarilho de línguas para a cegueira
um conto no jardim da parada
entre salivadas de placa suja
e tu olho de soslaio abrindo a catarata
vens tarde com a rapidez dos iníquos
abrir uma porta latejante na dormência
onde crime algum suspira já só
a liberdade de ter tardes pagas e arrotadas.
a linguística uma curva lá atrás
e deixada pelo caminho a vontade ainda despida.

de que me servem os cantos de luz e os espaços
se tenho a honra de não ter sido mais que a soma dos meus cansaços.

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