nem sequer o ódio
nem sequer a palavra é um ódio
nem sequer eu sou um filho
nem todos temos o futuro nos dentes.
ouve
eu canto-te o signo das coisas ao ouvido
o futuro ingénuo dos passos arrítmicos
o quanto me debruço nas arestas
do teu corpo.
pendo da fome
de morrer hoje
muito mais depressa do que queria
do que um amanhã que nasça em sol morno
do que ouvir-te balbuciar as vontades
a maresia
e escondo um olhar para o rio
a visão nefasta de um dia pleno
a voz tanta
irrigada de sangue
prenunciada de um aroma mais silente
o amor à carne apodrecida
este abraço que te dou eterno
até que nos doa
o limite dos dedos.
o vento ressoa na ilusão de um poema
como queres que te diga
o corpo dobra-se de dor neste cuspo amargo
um lençol genital enrolado a uma prece
como queres que te diga
o lábil conselho dos minérios
a tua pele de magma descosendo-se
ao tacto das flores etéreas do silêncio.
deixa que te beije
obscuramente o rosto
num arremesso a brutalidade
com que te velo.
deixa que te sinta
o canto fremente das artérias
a palavra ódio irrigada na tua língua
o aspergir das sombras dentro do teu verbo.
queimo-me dentro deste jacto
sonífero onde direi o teu nome
arregaçando a pele que jaz dentro
do corpo móbil da palavra.
o quanto te quero
um fio de lava e de eterno
desenhando-nos os olhos
as mãos o torpor leve
da cama a medo.
espreita como o dia se desenha
agreste nas janelas.
na minha boca a tua pele
canta uma rua inteira de som.
sei que te perco
e cumpro.
Sem comentários:
Enviar um comentário