segunda-feira, 29 de setembro de 2014

diz-me
há um dia prateado que começa
por detrás dos teus olhos
e sinto-lhe a distância.
daqui todas as coisas
soam ao negro.
é como se me fechasse
dentro do próprio sentir das esferas
num registo etéreo de fim-dos-dias
antes
do fim-de-semana prolongado em que
saí e fui à deriva ter com
esses teus olhos sem freio
como se a estrada fosse a tua língua
a levar-me até ti
naquele dia último
em que um horizonte de árvores se fendeu
para deixar entrar a morte.
e os seus dedos na curva de um nevoeiro
pousados sobre a minha testa.
como quem conforta um filho.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

der angst

o brilho das manhãs enfurece.
a ira reverte para dentro do corpo
e há um brevíssimo som de queda
um simulacro de uma tempestade
antes de ser tempestade
como os contornos frágeis
dos dedos sonâmbulos do tempo
desenhando no ar a sombra por vir
a vontade de morrer bem cedo
- antes do primeiro autocarro
para o primeiro destino -
e uma fervura de língua
agitando as chuvas serenas dos equinócios.

a vontade mutila
dá-nos o sumo dos cortes
a certeza anunciada
de um corpo estrangeiro no chão.
o nosso. antes de ser nosso.
antes de ter o nome
do nosso rosto
cravado na pele em ritmo precoce.

...

a janela
antecipada ao medo
guarda-nos as raízes de uma voz
imaculada. mas o sopro das palavras
permanece ausente.

sábado, 13 de setembro de 2014

não creio que faça assim tanta diferença
o meu olhar rejeitado pela
manhã que se veste à pressa
no parapeito da janela seguinte
onde as minhas mãos
(local nenhum de guardar restos dos outros)
não chegam nem
para sufocar de espanto
a flor de pele que se descobre
entre o cinzento luminar confuso
de uma hora já crescida e prenhe
do ar saturado do meu rosto.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

uma vez que termine
a significação dos pontos
(andorinhas cruzando no ar
o ritmo da derrota)
teremos algo a dizer
por fim

a música
penetrada pelos poros
numa semelhança de outonos:
um por um
desfeitos contra o branco
da parede de papel eternamente
vazia e dissemelhante.

sábado, 6 de setembro de 2014

pode ser o teu último e humilíssimo Bruckner
e olharás como se fosse sempre
estrada por abrir com os próprios dedos como
fruta macia num verão que tarda a aparecer
por entre os ombros dos desconhecidos.

as frases inteiras
demasiado longas demasiado inúteis
girando numa conspiração de desmazelo
e falta de rigor
e absoluto nada.
(ninguém que as ouça.)

pode ser o teu último e humilíssimo dia.
estranharás sempre o sabor final de uma árvore
que descanse no seu último sol. das teias
que a luz projecta sobre o teu rosto
como hora de incendiar o tempo
de abrir o fundo dos poços
de esventrar e secar todos os começos.

pode ser que não venha.
há quem nem conheça
a oitava e todas as outras.
há quem nunca as venha a ouvir.
e o lamber ressequido do pano amortalhado
saberá exactamente ao mesmo.