a esse sítio de ser domingo
à sinfonia das avenidas mortas
ao horror das casas silenciosas
inflamadas numa respiração
que habita dentro
tenho a dizer
que o fim disto tudo podia ser bonito
mas não é.
domingo, 24 de agosto de 2014
sábado, 23 de agosto de 2014
transiência dos venenos
disso posso dizer
do crepitar ocioso das árvores
posso dizer
não há forma de se ser um oposto.
//
coabitamos com uma réplica ensurdecedora de som
uma palavra abafada entre os lençóis
que separam a contingência dos dias.
no fundo não sei língua nenhuma. sabemos
que não. anuis
terceira pessoa a espreitar à porta
no vislumbre de um órgão
amaciado pela cor da manhã
ainda prenhe de cinzento.
carrego a culpa plural
e alterno entre
um passeio ao acaso
e um estado saliente de vergonha
de passear ao acaso
não tendo pés que girem na direcção de uma
morada correcta.
antes que caia a noite
queria muito terminar esta estranheza.
(exprimi-la mal. vesti-la mal. senti-la mal.)
//
a culpa
foi sempre da insistente troca corporal
entre o interior e o litoral.
no fundo
a cidade rejeitou-me
enquanto lhe amava ainda
os bordados de sol no topo dos edifícios
à hora em que o envidraçado das tílias
lhe projectava nos passeios uma face
sonora de sítio de ser nunca.
senti-me logo aí cuspido
(o andar torto. o olhar resumido às saliências das pedras)
para não mais distinguir
faces e nomes
apenas cheiros
apetrechos inconcretos
como marca dos espaços.
tenho a recordar
tarefa última do dia
o contorno líquido das palavras.
uma última bênção
segregada nas sombras dos edifícios.
do crepitar ocioso das árvores
posso dizer
não há forma de se ser um oposto.
//
coabitamos com uma réplica ensurdecedora de som
uma palavra abafada entre os lençóis
que separam a contingência dos dias.
no fundo não sei língua nenhuma. sabemos
que não. anuis
terceira pessoa a espreitar à porta
no vislumbre de um órgão
amaciado pela cor da manhã
ainda prenhe de cinzento.
carrego a culpa plural
e alterno entre
um passeio ao acaso
e um estado saliente de vergonha
de passear ao acaso
não tendo pés que girem na direcção de uma
morada correcta.
antes que caia a noite
queria muito terminar esta estranheza.
(exprimi-la mal. vesti-la mal. senti-la mal.)
//
a culpa
foi sempre da insistente troca corporal
entre o interior e o litoral.
no fundo
a cidade rejeitou-me
enquanto lhe amava ainda
os bordados de sol no topo dos edifícios
à hora em que o envidraçado das tílias
lhe projectava nos passeios uma face
sonora de sítio de ser nunca.
senti-me logo aí cuspido
(o andar torto. o olhar resumido às saliências das pedras)
para não mais distinguir
faces e nomes
apenas cheiros
apetrechos inconcretos
como marca dos espaços.
tenho a recordar
tarefa última do dia
o contorno líquido das palavras.
uma última bênção
segregada nas sombras dos edifícios.
sexta-feira, 22 de agosto de 2014
podíamos ser
lentamente
um enxame sulfuroso
em abraço simétrico
uma fúria e um cheiro nauseabundo
tudo num só aperto
tão pouco comovido tão pouco
ele só
ele
como a porta que abre por último
o silêncio irreparável da noite
a lâmina de uma ausência
crescida bem no centro do corpo.
podíamos ser
no fim
uma ordem desmesurada de partos
em luz e em riste
das coisas salientes das coisas.
pretéritos
de um compasso anterior
de um engano de um
gole sôfrego
de ar submerso.
no fim
a beleza etérea
de um espasmo.
lentamente
um enxame sulfuroso
em abraço simétrico
uma fúria e um cheiro nauseabundo
tudo num só aperto
tão pouco comovido tão pouco
ele só
ele
como a porta que abre por último
o silêncio irreparável da noite
a lâmina de uma ausência
crescida bem no centro do corpo.
podíamos ser
no fim
uma ordem desmesurada de partos
em luz e em riste
das coisas salientes das coisas.
pretéritos
de um compasso anterior
de um engano de um
gole sôfrego
de ar submerso.
no fim
a beleza etérea
de um espasmo.
quarta-feira, 20 de agosto de 2014
quero dizer por fim
que este tom tingido de enjoo
é só o que me resta
disse-o claramente
mas pintei por dentro
uma atrocidade mais oblíqua.
para significar
sê semelhante
para andar -
perdido nu na cidade esférica
ao ponto do tamanho das casas ser
do tamanho das vidas e da crueza do chão
rastejar pelo corpo como mistério
como dolorosa partida para a humanidade
onde poisa a nitidez dos pombos pousa
a minha mão inquieta e desejo ir para debaixo das sombras
onde só falam num dialecto de paisagens adormecidas
os lugares declinados das fragrâncias e onde
se me quebram os ossos todos sem assomo de fé
e onde me minto e me guardo um resto de mim
camada fina de sangue nos rios entre as pedras
apartadas pelas mãos cinzentas e finais dos cafés
um dia a mostrar-se a outro dia a fazer
medo aos que o olham o dia
a fazer segredo das coisas vãs a mostrar o interior
do dia que sabe tudo e que até vem de carga pronta
para nos dizer
morremos
e isso tudo é muito lindo é bem lindo de facto
morremos antes de viajar e conhecer a feição carnuda
de outros dias de outros azeites de outros mundos
religiosamente apartados pelas mãos cinzentas e finais
dos mistérios da terra onde nasci
raramente chove mas é um sítio onde me chove muito
dentro de casa dentro do olho dentro do peito
nessas alturas vêm as mãos cinzentas e finais
afinar o piano tornar mudo o cego e humedecer os lábios dos que dormem
como quem lhes dobra lençóis e conserta pescoços
como quem vira os prédios do avesso e sofre
de ver tanto resto de gente de joelhos ou em pé
sem pai nem mãe nem cabelos
porque a igualdade punitiva da atmosfera também sofre
uma flor desfeita em sangue no meu ouvido
gritada algures pelas sereias de um rio apodrecido
onde descanse minha alma junto de teu corpo
onde minha náusea de rés e em espelho
sozinha descanse nos relevos embevecidos
dos que assassinam de manhã a raiva imensa da madrugada
olhando-a de frente sem sinal de terem dormido
- para andar sê
primeiro
o último.
que este tom tingido de enjoo
é só o que me resta
disse-o claramente
mas pintei por dentro
uma atrocidade mais oblíqua.
para significar
sê semelhante
para andar -
perdido nu na cidade esférica
ao ponto do tamanho das casas ser
do tamanho das vidas e da crueza do chão
rastejar pelo corpo como mistério
como dolorosa partida para a humanidade
onde poisa a nitidez dos pombos pousa
a minha mão inquieta e desejo ir para debaixo das sombras
onde só falam num dialecto de paisagens adormecidas
os lugares declinados das fragrâncias e onde
se me quebram os ossos todos sem assomo de fé
e onde me minto e me guardo um resto de mim
camada fina de sangue nos rios entre as pedras
apartadas pelas mãos cinzentas e finais dos cafés
um dia a mostrar-se a outro dia a fazer
medo aos que o olham o dia
a fazer segredo das coisas vãs a mostrar o interior
do dia que sabe tudo e que até vem de carga pronta
para nos dizer
morremos
e isso tudo é muito lindo é bem lindo de facto
morremos antes de viajar e conhecer a feição carnuda
de outros dias de outros azeites de outros mundos
religiosamente apartados pelas mãos cinzentas e finais
dos mistérios da terra onde nasci
raramente chove mas é um sítio onde me chove muito
dentro de casa dentro do olho dentro do peito
nessas alturas vêm as mãos cinzentas e finais
afinar o piano tornar mudo o cego e humedecer os lábios dos que dormem
como quem lhes dobra lençóis e conserta pescoços
como quem vira os prédios do avesso e sofre
de ver tanto resto de gente de joelhos ou em pé
sem pai nem mãe nem cabelos
porque a igualdade punitiva da atmosfera também sofre
uma flor desfeita em sangue no meu ouvido
gritada algures pelas sereias de um rio apodrecido
onde descanse minha alma junto de teu corpo
onde minha náusea de rés e em espelho
sozinha descanse nos relevos embevecidos
dos que assassinam de manhã a raiva imensa da madrugada
olhando-a de frente sem sinal de terem dormido
- para andar sê
primeiro
o último.
tanto que eu te pedi
que me circunscrevesses
círculo dourado iluminado
à passagem do teu olhar.
tanto que até me lembro
foi um revés dos dias
um maremoto em ponto
morto vindo na direcção dos que engolem
pela janela a imensidão de uma serra
em verde de manhã num ano
que começa em dormência
seminal. um dia após o outro
sem sofrermos do atrito dos nomes
e das vontades restar apenas
um planar raso de ave morta.
rompi-te o ventre
país imenso e seco
para te trazer mais pó
nos sapatos um outro andar
mais de tom perdido. tu
ilha à deriva e sem pensamento
tu hás-de abrir brecha destes nós
e deste sossego emaranhar a carne
humana que há tanto te espera.
que me circunscrevesses
círculo dourado iluminado
à passagem do teu olhar.
tanto que até me lembro
foi um revés dos dias
um maremoto em ponto
morto vindo na direcção dos que engolem
pela janela a imensidão de uma serra
em verde de manhã num ano
que começa em dormência
seminal. um dia após o outro
sem sofrermos do atrito dos nomes
e das vontades restar apenas
um planar raso de ave morta.
rompi-te o ventre
país imenso e seco
para te trazer mais pó
nos sapatos um outro andar
mais de tom perdido. tu
ilha à deriva e sem pensamento
tu hás-de abrir brecha destes nós
e deste sossego emaranhar a carne
humana que há tanto te espera.
sábado, 9 de agosto de 2014
há tanto tempo se carrega
porém
o peso concentrado da dissonância
num latejar de têmpora fora do tempo
num estalar de língua frouxo e rançoso
sempre com
a derrota a servir-nos de travesseiro
e um sistema solar de equinócios mudos
expectantes pelo nosso passo inconcreto
a esboroar de tinta plástica
a curiosidade decomposta dos dias
aquilo que te disse
foi certamente o meu mais correcto sentido
de fuga para o interior
das asas pueris das aves mortas
em primaveras mal chocadas paridas e abandonadas
aos ninhos esburacados.
sinto que sofro da coesão parcelar
das agulhas que se escorrem pelo rosto
e nos falam de um passado neutro sem cores
de olheiras e de sentido findo.
faço o mínimo barulho possível
é de noite e faço o mínimo som
para que o meu lugar de suor
nesta cama se evapore e se cale
e não conte de mim mais do que
o traço desfocado de um mês passado
num ano qualquer passado
quando um comboio explodiu sem razão
bem no interior de um país adulto
que tinha partido entre lenços ensopados
para uma guerra nunca sua.
porém
o peso concentrado da dissonância
num latejar de têmpora fora do tempo
num estalar de língua frouxo e rançoso
sempre com
a derrota a servir-nos de travesseiro
e um sistema solar de equinócios mudos
expectantes pelo nosso passo inconcreto
a esboroar de tinta plástica
a curiosidade decomposta dos dias
aquilo que te disse
foi certamente o meu mais correcto sentido
de fuga para o interior
das asas pueris das aves mortas
em primaveras mal chocadas paridas e abandonadas
aos ninhos esburacados.
sinto que sofro da coesão parcelar
das agulhas que se escorrem pelo rosto
e nos falam de um passado neutro sem cores
de olheiras e de sentido findo.
faço o mínimo barulho possível
é de noite e faço o mínimo som
para que o meu lugar de suor
nesta cama se evapore e se cale
e não conte de mim mais do que
o traço desfocado de um mês passado
num ano qualquer passado
quando um comboio explodiu sem razão
bem no interior de um país adulto
que tinha partido entre lenços ensopados
para uma guerra nunca sua.
porque temos demasiadas vezes aquele pensamento
como um jeito arqueado de costas
um murmurar de canção nenhuma na outra divisão
um silêncio de que cumpriremos cumpriremos
mas vem um dia outro e não. simplesmente não.
quem me olha assim e vê
a figura desfigurada do caminhante
roto e cego e
nu se não o vejo
perdido num quintalejo de espinhos
como pálpebra sua. propriedade defunta.
espalhado ardor de tardes em fecho corrido
durante agostos só de secura.
a minha sílaba fundida com o crepitar pagão
de uma estrada sem percurso.
um beijo na animalidade sincera das amoras
prenhes ainda antes de o mundo se moldar
à carne dos que vagueiam.
mas sei que a minha morada é certa
sem noção de hoje ser sábado e não haver
tanto pé para abrir estrada. é aquele
recôndito canto talvez cinzento
num nó de garganta de dedos de cotovelo
onde antes olhos.
um corpo nu vale isso
tapando a cara ao ardor dos crimes em espera
dos outros
vale isso. um cheiro de cremação anunciada.
varrendo os lábios. a incisão do desejo
três nós abaixo.
como um jeito arqueado de costas
um murmurar de canção nenhuma na outra divisão
um silêncio de que cumpriremos cumpriremos
mas vem um dia outro e não. simplesmente não.
quem me olha assim e vê
a figura desfigurada do caminhante
roto e cego e
nu se não o vejo
perdido num quintalejo de espinhos
como pálpebra sua. propriedade defunta.
espalhado ardor de tardes em fecho corrido
durante agostos só de secura.
a minha sílaba fundida com o crepitar pagão
de uma estrada sem percurso.
um beijo na animalidade sincera das amoras
prenhes ainda antes de o mundo se moldar
à carne dos que vagueiam.
mas sei que a minha morada é certa
sem noção de hoje ser sábado e não haver
tanto pé para abrir estrada. é aquele
recôndito canto talvez cinzento
num nó de garganta de dedos de cotovelo
onde antes olhos.
um corpo nu vale isso
tapando a cara ao ardor dos crimes em espera
dos outros
vale isso. um cheiro de cremação anunciada.
varrendo os lábios. a incisão do desejo
três nós abaixo.
domingo, 3 de agosto de 2014
sábado, 2 de agosto de 2014
é na vontade crescente
de ser noite
que te lembro as mãos.
as minhas
- num outro tempo -
agora carne alheia futura
fio límpido de uma lembrança em
espelho côncavo.
sublimo a antecipação deste silêncio que cresce
no debruçar-se lânguido das janelas
sobre a via respiratória de um
afastamento.
- num outro dia -
aquele em que
vieram as palavras
houve uma morte secreta sem semelhante.
elas
as palavras
ficaram sob uma ombreira de porta despida
e um insecto na ferocidade da prata
zuniu-lhes o precipício
rente à boca
justo à boca.
cumpriu-se distante
talvez próximo daquele hiato profundo
de mundo anterior que guardamos
nas mãos uns dos outros
um escasso e nervoso espasmo de aurora
sem espectador.
de ser noite
que te lembro as mãos.
as minhas
- num outro tempo -
agora carne alheia futura
fio límpido de uma lembrança em
espelho côncavo.
sublimo a antecipação deste silêncio que cresce
no debruçar-se lânguido das janelas
sobre a via respiratória de um
afastamento.
- num outro dia -
aquele em que
vieram as palavras
houve uma morte secreta sem semelhante.
elas
as palavras
ficaram sob uma ombreira de porta despida
e um insecto na ferocidade da prata
zuniu-lhes o precipício
rente à boca
justo à boca.
cumpriu-se distante
talvez próximo daquele hiato profundo
de mundo anterior que guardamos
nas mãos uns dos outros
um escasso e nervoso espasmo de aurora
sem espectador.
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