disso posso dizer
do crepitar ocioso das árvores
posso dizer
não há forma de se ser um oposto.
//
coabitamos com uma réplica ensurdecedora de som
uma palavra abafada entre os lençóis
que separam a contingência dos dias.
no fundo não sei língua nenhuma. sabemos
que não. anuis
terceira pessoa a espreitar à porta
no vislumbre de um órgão
amaciado pela cor da manhã
ainda prenhe de cinzento.
carrego a culpa plural
e alterno entre
um passeio ao acaso
e um estado saliente de vergonha
de passear ao acaso
não tendo pés que girem na direcção de uma
morada correcta.
antes que caia a noite
queria muito terminar esta estranheza.
(exprimi-la mal. vesti-la mal. senti-la mal.)
//
a culpa
foi sempre da insistente troca corporal
entre o interior e o litoral.
no fundo
a cidade rejeitou-me
enquanto lhe amava ainda
os bordados de sol no topo dos edifícios
à hora em que o envidraçado das tílias
lhe projectava nos passeios uma face
sonora de sítio de ser nunca.
senti-me logo aí cuspido
(o andar torto. o olhar resumido às saliências das pedras)
para não mais distinguir
faces e nomes
apenas cheiros
apetrechos inconcretos
como marca dos espaços.
tenho a recordar
tarefa última do dia
o contorno líquido das palavras.
uma última bênção
segregada nas sombras dos edifícios.
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