caro leitor:
vamos explicar essa febre
os lábios arreganhados e uma vontade súbita
de um amanhã com horas gastas.
há quanto tempo não escreve? há quanto tempo não ferve
nem faz carícias da pior espécie
no travo humano dos versículos na estante?
há quanto tempo um relaxe muscular e um grito em surdina
o dia inteiro a estragar o dia inteiro
a pôr-lhe sal no osso da língua meio destra meio vesga
meio cega já só um pedacinho de carne e também vazia
há quanto
é ainda campeão de um extraordinário furor entre os curvados
e há quanto
a loucura ainda lhe disse um adeus amor volto logo
porque e reflicta nisto caro leitor
não há assim tanta espécie de ódio no mundo
e o seu até nem é do mais variegado é apenas isso
um ódio modo de comichão ou perna dorida de tanto andar tão pouco
um pudor ou o arremedo do pudor na ponta dos dedos
e diga porque não se esgana e volta e meia também não
se tenta na arte do nó na garganta ou naquela bem conhecida
em fascículos e às mijinhas
a do veneno da lascívia e beba um trago outro daí em diante
os dias ficarão menos mas melhores
e saberá que ferver por pouco até pelo que dizem é desumano
e que o seu rigor mortis antecipado é apenas demais no rançoso
de menos no rigoroso
vá expulse a questão isso sofre-lhe e creio que é esta
"porque haveremos sempre de tocar a face do medo"
pois lhe digo falta-lhe aí uma face
um ser estranho à esquina olhando para a outra rua
e de súbito para este lado e não é para este lado
é para mim quer dizer para si
e esse ser mais belo agora que estranho é-lhe isso
desfigurado e profundamente temido
quase lhe sentindo o cheiro aproxima-se
você daquilo mas aquilo vê através
com que olhos não sei mas vê
e você leitor sabe que é aí que morre
desta vez verdadeiramente faça-se-lhe justiça
há muito que ansiava esta a morte derradeira
mas não esta de quem olha a uma esquina sendo noite
e estando gente e menos gente que noite mas mesmo assim
muito mundo em volta e um calor interminável do peito aos dedos
mas uns olhos só olhos e através
e a si leitor ferve-lhe a palavra não dita
é dali que brota o veneno nocturno e o oceano pulsando aos pés da cama
no tecto olhando lúgubre o lugar da face sem face dentro desse lugar
o leitor apaixonado pelos próprios dedos
eles amando o leitor e agarrando-lhe o pescoço
já é hora já é hora
e apaga-se o crime.
queira o silêncio e ame-o no maior
despojamento.
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