diziam
no fim o jogo é só uma vida
e eu via ao fundo
a Beatriz
calando no parque entre os gritos
olha que linda
a nossa menina
eu julgava-a morta
eu julgava-a como o que
podia ter sido
era o fim e havia um jogo
nos cafés a acenar calando
olha que linda
uma questão dentro dos olhos
ou isso era eu dentro de um
podia ter sido
outro tempo ou podia ser hoje
e não me aperceberia
havia mesmo uma maneira de olhar
no parque os gritos
de passear o cão entre as árvores
pernas num desmanche ou esse
olha que linda
a nossa menina
como quem crescesse depressa
para desaparecer despressa
como se não bastasse ser cego para ser pai
há ainda um grito impronunciável
no meio das tuas pernas há
um meio outro de atingir este fim
olhando-te como se calasses
esse som de quem persegue o filho
na esquina onde o fixo cego se perde
dá-lhe um braço
e vejo porque é uma vida o quanto basta
para nunca te ter visto onde
algures um banco
ou sempre o parque onde vou matar
o que me resta
para que não haja o meu corpo
certo e verdadeiro
aplicação da regra da idade vezes
o três da responsabilidade genética
olhando por mim e pelos meus cães e pelos meus dentes
porque é de facto tarde
para os ter todos
no fim
é tudo um outro jogo ou antes
um outro conjunto de prédios
o que me interessa é quem já viveu neles
tempo suficiente para se casar
e vir a amar as coisas
deixando no fim a própria pele
do que eu podia ter sido
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