quinta-feira, 29 de novembro de 2012
A perda de um rosto
Se esse tremer for de choro
detenho-me. Que é esse soluçar
forte que te asperge ranho
sobre os lábios finos?
Alguém caiu e bateu com a cara no chão.
A gravidade a chamar a si a beleza alheia
que passa insolente na rua.
Humilhando madames e coquetes,
homens galãs e crianças mimadas.
Apre, sacana do destino!
Quiseste consumir os prazeres levianos
da expectativa,
retirar de nós a produção divina
da rara estética.
E o mundo fica mais triste?
Face à feiura nova de um ente perdido
o mundo não se compadece.
Não se entristece; ri talvez!, mesmo.
Agora és um de nós, meio enjeitado
sentirás o fel da rejeição humana.
Toma um lenço, pobre alma.
Limpa esse sangue. Essa cana do nariz
desperdiçada, esse olho rompido.
Tudo isso agora serve-te de nada.
Não chores. Não te resignes à dor.
Levanta-te e persegue, desfigurada,
as portas abertas de um destino novo.
O cabrão que te abandonou,
que te cuspiu nas pedras redondas da calçada
e não te segurou nessa queda,
morreu.
Hoje porém há sol, e há carros que passam,
e gente feliz com sacos pela mão.
E gritinhos eufóricos, e pais alegres
com risonhos petizes a engordar para a ceia de natal.
Torna-te um deles, vai!
Mas cospe antes esse dente solto que pende nessa boca escura.
28-11-2012
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
Sem comentários:
Enviar um comentário