sábado, 1 de dezembro de 2012
É tempo de te perguntar, crente
É tempo de te perguntar, crente,
que pensas tu, quando passas na rua
e me olhas?
É agora que todo esse enigma
redondo e aviltante
se deve expôr em traço nítido
ante nós.
Que paira nessa mente?
Um passeio à Bica, ofegar pelo Chiado?
Um assento alheado no Rossio?
Quem me dera não ver tanta gente de vez em quando.
Tanta gente nova e diferente,
tanta gente que não eu, fora
da minha vulgar redoma.
Gente com olhos e vozes enfastiantes.
Gente que nos perscruta a mente,
ou os cabelos levantados pelo vento.
Gente que nos avalia e palra sem
condensação.
Gente cujas vozes se elevam alto
para serem mais e mais compreendidas
face ao rugir dos motores e ao trinar do eléctrico.
Tanta gente
e tão pouca.
O relevo de caras e corpos agasalhados
é a profusão diária dos meus pensamentos.
Tão pouco importa,
tão pouco releva, se abstrai do mundano
e me acena.
Tão pouco
e tanto.
Rumei onde me querem,
porque não sei eu o que quero.
Nesse caminho há sempre, um dia de cada vez,
alguém de cada vez.
Alguém olha e não desvia o olhar
antes de anular feições e perigos.
Mas que momento esse,
eu onde não sei se quero estar,
não sei se quero ver quem me vê.
E o que vê quem o faz?
O que realmente lhe perpassa
pela entranha enovelada do miolo?
Oh, porquê perguntar quando sei
que não lhe passa nada. Nada de novo,
como não me passa a mim há muito.
Tudo o que se vê é rapidamente engolido
por essa cegueira galopante
da memória curta.
Frente a uma qualquer paragem há possíveis passageiros.
A espera é deles como sempre foi.
Quem passa tem passos também e não espera.
Esse é o desígnio dos nomes,
o destino do mundo.
Porquê contrariar, com sacudidelas da mente
o jorrar contínuo dos tempos?
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