quarta-feira, 5 de dezembro de 2012
murmúrio
(Sinto que desenvolvo o sentido preocupante da paranóia.)
Talvez os poemas sejam isso:
o excretar físico de emoções.
A contemplação difusa
do assoberbamento diário.
(Por que me olham assim?
Mais valia ter uma placa que diz:
"Eu não faço mal!")
A minha vida sempre um não rotundo.
Grande e inegligenciável.
Esse não que como nuvem negra
me persegue todas as tentativas
de contacto humano.
(Só gostava que às vezes
as pessoas não reparassem em mim
pelo que não sou.)
Como tecer comentários
à ausência? À inexistência?
Todos são bons, e grandes e conhecedores,
e deixam isso bem claro.
Deixam bem claro que nós
somos fez, poia com membros
que não fala, regurgita,
que não pensa, imita,
que não vive, apenas esperneia
nulidades latentes.
Cada vez mais esses olhares de soslaio
me convencem
de que sou isso mesmo,
um cocó com um metro e setenta e três,
que o meu cheiro me faz boa jus ao aspecto.
Que não tenho pensar meu,
sou o reciclar de tudo o que vejo e oiço,
o condensar estúpido de um mundo
talvez ainda mais néscio;
mas que importa?
O que importa é sermos nada,
isso é o que importa aos outros.
O que importa é não nos darem crédito,
o que importa é poderem espezinhar-nos,
o que importa é sermos eterna caca.
Se o mundo o quer, quem somos nós
para lho negarmos?
(Ainda mato alguém
nem que esse alguém seja eu.
Ainda atiro uma pedrada despreocupada
ao próximo que me olhar
e não limpar desse olhar
o vulgar sentido da crítica.)
Estou por demais eléctrico, quero sair.
Mas não tenho como.
Como companhia apenas me garanto
a minha própria solidão.
A verdade é esta,
eu preocupo-me demais
com o que os outros se preocupam de menos,
comigo próprio.
Estou a ponto de desejar
uma única coisa.
Pode ser o meu próximo augúrio
frente ao meu próximo soprar de velas.
O meu augúrio eterno, este.
Encontrar entre as mentes
a mente que oiça.
Que me atenda
ao toque singelo do desespero
as inquietações.
Uma mente que eu oiça,
e que eu compreenda, que me fascine
pela sua simples existência.
Estou a ponto disto,
de cair num lugar-comum sem retorno,
ante a célebre evidência
de que o nosso caixão
contém apenas um ser.
Apetece-me gritar,
barafustar com quem não devo,
acelerar relógios
e empurrar velhotas pachorrentas.
Bater com a cabeça num muro,
e esfolar-me todo sem ressentimento,
abanar desabridamente uma moça insolente
e apontar o dedo do meio aos soberbos da vida.
Ninguém tem culpa,
a culpa é minha por me querer
a viver cada dia após outro.
A culpa é minha por querer ser
eu em vez de outro.
Mas eu não sou ninguém,
não tenho caixas, nem gavetas,
não tenho roupas, botas, penteados e carros
para me situar no escadote social.
A minha etiqueta foi arrancada à nascença
sem ela perco-me, e os outros perdem-me.
Para eles a minha face tens as feições
de um picasso. Não sabem o que é.
Tenho a boca torta e os olhos vesgos.
E o meu nome...
Bem, não tenho nome. Não tenho conceito,
não tenho ser.
Tenho corpo
e será que isso basta?
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
Sem comentários:
Enviar um comentário