Ó tu, sim tu!
Tu que ainda agora me falavas,
me bocejavas insignificâncias do teu presente
e eu a ti do meu presente soprava
a nulidade dos seus dias,
Tu! Estava a falar contigo.
Tu, que agora viraste costas,
assomou-te o interesse de outro interesseiro,
respondeste-lhe com o vigor desnecessário
da salvação a um aborrecimento.
Tu, vergonha das dialéticas discurso-argumentativas,
tu, volta já aqui.
Ainda não acabara a minha tese.
Ainda não fora o momento de findar
o dia sem lhe dizer, perante o dia como juiz
que este eu que sou
se exalta com pouco.
Que este eu que sou
tem doenças e é paranóico
e um dia agarra numa pistola,
desce ao cais do sodré
e mata algum desapercebido bando de transeuntes
que infeliz não fez nada por merecer da vida
a morte insolente de um contrafeito, de um ressabiado.
Tu, sujeito, sabes bem
como todos os da tua laia,
que assim perfazem todos os que conheço
e que em alegorias sarcásticas enumero como amigos,
sabes que virar-me costas é desígnio santo,
é o cumprir das eras, do rodar obstinado dos ponteiros.
Virar-me costas é ser destino,
é tirar-me o suco de um conversa, morna ou fria,
ou quente que seja,
e seguir o que deve ser seguido,
a anulação de bestas inoportunas como eu.
Esse tédio injectado nos meus olhos
resplandesce agora à luz dos candeeiros.
Eu, encostado a este poste
rezo baixinho maldições e conjuro maus-olhados,
eles literais e inteiros, porque o vesgo dos meus olhos
é sincero e por isso, lá está, é mau
porque o quer ser.
Tu, ridículo, mas não mais do que eu,
Tu! volta-te indecente e encara-me
para te dar um murro de vez,
soltar-te o dente brilhante,
inchar-te a face luzidia.
Tu, que sabes tão bem como todos
que não comunicar comigo
é espalhar flores e charme, e perfumes
canforados em amaciados cabelos
imolados de vez da réstia maçadora
do aborrecimento que o meu palavreado sopro provoca.
Tu, suplico-te em compaixão, vive e não te lembres
do meu rosto.
Assim talvez se cumpra,
com a alegria inesperada
de quem acorda no dia de natal
e não se recorda dele senão quando vê as prendas
aos pés da cama e o sorriso dos progenitores,
assim talvez se cumpra o destino
mais cedo que o destino,
e o universo solte um gritinho excitado de criança,
um apito perturbador de contentamento e êxtase
ao saber que por fim
jaz inócuo e esquecido
o importuno maçador de gentes,
o revoltado contemplador de costas,
o insuspeito perseguidor de nomes e conversas alheias.
Jaz ali,
nessa poça meio pegajosa e meio escura
essa cabeça que tanto e tantos trucidou,
mas em metade, que a outra,
a outra ninguém jamais a devolveu e montou peça a peça,
agora que dispersa escorre com pictórico modernismo
pela parede silenciada pelo espanto.
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