sábado, 8 de dezembro de 2012
Abri a janela de par em par
Abri a janela de par em par.
A humidade penetra-me os ossos
e o respirar contínuo do tempo
é o meu, no acaso.
Oiço vida nessa rua sinuosa
dentro de mim.
Se me questiono
que ferver de alma é este
sei que a resposta é simples.
É a febre dos enfermos,
o cáustico madrugar dos que morrem
na combustão miraculada
de uma ideia ilegível.
Procurei de mais,
em todas as noites, todas as ruas,
a face desse medo,
os contornos imutáveis desse desígnio
fixo do pensamento.
Olhei por demais para rostos múltiplos,
para olhos frios e bocas silenciosas,
de uma vida que não partilha a minha.
Sempre a transparência interposta
de um qualquer limite físico ou mental.
Sempre a mão esticada, no alcançar disposta
sem sentir o toque cálido
de uma terna pulsão exterior.
Que é essa febre que me consome então?
Que me faz tossir a altas horas da madrugada,
expelir pulmões em arrepios eléctricos de suor,
procurar o quente abrasivo ante um frio aterrador?
O que é uma ideia, ela mesma?
O que é a soma das vontades?,
e a minha no meio dessa soma, sem saber se é vontade
porque não sabe para o que tende,
para o que conduz, para o que quer.
Se me debruço na varanda
olho quem passa com arrogância, talvez.
Não sei o que me vêem nos olhos,
os que os sondam em aflitivos esgares.
Na verdade não é a arrogância que os habita,
é o vazio.
Os olhos estão vítreos, congelaram de tanto
haver.
Perseguiram em demasia um contorno disforme
de alma,
e perderam-se nesse voraz caminho.
Sem retorno
sinto que fujo
e que permaneço.
Dói de mais pensar
no que sou. Dói de mais
ser, sem entendimento,
o fervente louco contrafeito
das diásporas mundanas da omnisciência.
06-12-2012
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