quarta-feira, 5 de dezembro de 2012
A Verdade
"A teus pés,
sinto o clássico fluir
do firmamento.
O seu sabor salgado
pelas terminações vivas
do mar cantante.
Amo-te, sem mácula.
Quem somos nós para
nos amarmos, reciprocamente?
Qual o diáfano desígnio
do verso ateu
que nos juntou crus, em escassa hora?
O meu peito
em incêndio vasto.
O comburente carnal do teu corpo,
o espírito vivo omnipresente.
Não pensar, num singelo momento,
no aperto frio da aurora,
na madrugada titubeante
que nos dilacera.
Crer que tudo
é, sem tempo que nos finde,
o desejo um do outro."
...
Como sabes, minto
assertivamente.
Como sabes, sofro
desse esquema mental degenerado
dos que se renegam a si mesmos
a evidência profana
do autêntico.
Como sabes, vagueio
em encostas molhadas
de consternação. Sou o
espírito falhado das eras,
o costume em repugno,
o eremita das paixões latentes
da carne própria.
Como sabes, narcísico
hedon da hipermodernidade,
sou um retiro ensaguentado
de mim. Veias pujantes
que me circundam as vontades,
a rede torrencial dos medos
e das paixões principiam
e findam
nessa linha intemporal
do ego.
Como sabes, a praia deserta,
as gaivotas dispersas,
a areia nos teus cabelos e nos teus seios,
é a efabulação dionísica da minha mente.
Nada disso é, realmente,
porque nada disso o quer ser,
em verdade.
Essa esfera outrada que criei em mim,
esse círculo profundo carregado
dos minérios essenciais do meu sentir,
é uma brutalidade consumida.
É a minha cicuta matinal,
o meu raio de sol cancerígeno,
o meu picar letal
de amores residuais.
Esse efabular mágico que te cria,
outro, que te autentifica,
outro, nesse ser que se molda
na distância dos meus dedos,
essa criação é resina inalada
do abraço próprio.
É, sei lá, a mordida inesperada
que um cão raivoso fabrica
no seu apartado dorso.
A autofagia crítica
dos que sem metades para amar
se amarram ao todo rarefeito.
05-12-2012
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