quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Elogio do Riso


Rir
é ler baixo
um livro que não se gosta
na esplanada exígua de um café.
Admirar a pintura não intencional
dos jogos de outono
ou o casal de namorados
que se degusta em expiação.
Há que empurrar os nossos males,
os pesos aleijados da culpa diária,
de um para o outro, pela língua torta,
pelos lábios carentes,
pela saliva agitada em maré.

Rir
é contorcer na cadeira tosca
um corpo dormente. Sem toques
que nos ecoem a necessidade
de nos humanizarmos
constantemente.
É admirar da areia
os grãos finos do incómodo
ou da chuva a humidade ligeira
do retorno.
Espalmar um mosquito sem piedade
ou rezar odes ao vento que passa.

Rir
é espirrar sem pôr mão à frente
e consternar a senhora do lado
ou o vizinho oblíquo.
É libertar no muco desse espirro
os sonhos dourados da levitação feérica
de um espírito omnisciente.
E é perder nesse espirro
qualquer inspiração pura
de esboço de um novo dia.
Assim que vem, como coisa prematura,
se esvai a musa fria
sonegada pelos dedos puídos de um criador furibundo.

Rir
é amaldiçoar
com palavras bem mais fortes que "amaldiçoar"
quem nos deu a mama do mundo.
Quem nos colocou a boquinha ingénua
na fonte bojuda da criação.
É mostrar o cu e a pila
aos pais dos nossos ancestrais,
aos telúricos movimentos dos corpos
sombrios que desconhecemos.
Tudo porque não somos
o que não nos esforçamos ser.
Tudo porque almejamos a aliciante glória grega
sem retirarmos os pés macios desta cadeira,
verde e velha de esplanada,
enublada pelo fumo de um cigarro alheio,
ou pela miopia própria de quem só vê
ante si o seu café e o seu ser.

Rir
é isso, senhores.
Enfiar uma arma
na boca descerrada.
Contar até três
e premir de entre os sonhos
o verdadeiro:
escolher como desafio
o contornar maroto do destino.
E levar, insuspeitamente, com ele
na testa vazia, no cérebro adormecido.
E depois não ter mais esplanadas de café
exíguas e barulhentas
onde submergir o nosso riso.

05-12-2012

Sem comentários:

Enviar um comentário