Vagamos à toa
no declive de um poema.
- Que significam
os teus modos
de ser?
- Essas palavras
caras e ocas,
que querem elas dizer?
No escuro
desenho rostos vazios.
Com braços que se agitam,
a língua entalada nos dentes,
os olhos abertos na penumbra.
Rostos que não conheço
tomam vida
ante mim.
- São estes os teus poemas?
A carne frouxa de um fingidor?
Um artista cobarde
sem veia que o salve?
- São estas as tuas vozes,
os teus rostos? A lira desmembrada
de um vazio vulgar?
Um quotidiano que aterra e nos suprime?
- Onde está o teu sentido
de ser? A tua alma
não te rompeu o saco maternal
do repouso?
- És este simples esgar de súplica?
O lugar-comum das eras
estilizado até à exaustão?
Um vácuo inaudível de ser?
Círculos em elipses,
elipses sincopadas em estrelas,
estrelar de fusas e colcheias mortas.
Brilhante dizem as passagens difíceis da partitura,
sublime diz o público dormente e desatento,
tísico, maledicente
corroer de alma
engole o pianista.
Uma flor negra e murcha,
no ponto mais podre que conhecemos,
dentro dele e de nós.
Não há lágrimas
que se equivalham a essa flor,
a esse tormento, a essa oferenda
maldita dos deuses alienados.
Prosseguir os dias todos
com o cheiro fétido
que exala das pétalas gastas
desse vil ser herbáceo
que se enraizou no nosso peito,
que sulcou tecidos com penetrantes membros
de vegetal,
e nos transformou em seiva envenenada
o diáfano crer das manhãs.
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