terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

deixo-te falar por mim

(o tempo preexiste)

e se temos conversas longas demoradas um interlúdio
a abrir em cortes
outros dias perenemente cinzentos
é só porque me calo

(e oiço o rumorejar da estepe)

nem sempre abrimos a semente das sentenças
uma fuga episódica para a frente e
já esquecemos quem fomos antes de nós

(agora um só pé no precipício)

fala calo-me não adianta a promessa
assim até se apressa a morte
pode ser que caia um raio e nos dilacere
ou então

(a tua onda reflui num máximo. flutuamos a sós na primavera)

a vida é dizermos já chega
um basta e um adeus
a casa espera-me. e o amanhã nunca será
teu.

(a minha miséria é amar as misérias)

como um odor a podre
o desejo dos açúcares
a selva de uns cabelos desconhecidos
a língua presa à escada dos afectos
o teu sorriso na distância a tua carne
compacta no brilho das cópulas nocturnas.

(por onde ficámos. entre os dois dedos. esse espaço de mão esquartejada)

o sublime é o vício
o sublime é o ódio
o sublime é o manto roto do teus genitais entreabertos.

cuspamos.


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