segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

invariavelmente toda a linha do comboio
vista de cima é um crime
e eu dentro de um comboio que passe
dentro desta minha falta de tempo
falta-me a palavra e talvez fosses tu
que passasses dentro do comboio
e cruzasses a linha do crime
e trouxesses dentro de ti todas as janelas
de olhar triste para o mundo quando ainda
é de manhã
e me engano. sei que fui eu
que percorri os dias úteis à hora certa
me sentei naquele banco e olhos apertados
contra os teus olhos
senti por dentro a morte lenta
de quem descobre as palavras na linha correcta
e porém as erradas. e porém
as agulhas indicando a mudança de linha
a ameaça dos carris no sentido
intenso da queda. invariavelmente surdo
como se o corpo agitado fosse cuspido
no ar e no fundo
despido vim a sorver a linha como
veio desenhado em voo p'lo vento.
eu ao ar frio deste tempo gigante
onde devagar caem comboios pelos penhascos
quase tocando com um beijo as mãos frias da terra
chego a ler nos teus olhos
um corpo iluminado. à janela voraz que passa
noutra linha em sentido inverso.
o crime paralelo de um espaço.

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