terça-feira, 2 de dezembro de 2014

como assim o silêncio
como assim essa enorme falha
esse corte de orelha a orelha
esse risco indefinível de loucura
que tesouro e que sentimento
como assim o silêncio
e a palavra perfeita
e o ouvido que a escute perfeita
e o som perfeito que essa palavra desenha
cruzando o sangue dos ribeiros
e abrindo a corrente às manhãs ainda
em sono como assim
um intervalo um interregno e um início
um poço e um dos meus olhos no fundo
como falar disto sem língua semelhante
e ainda a corda presa pelos dentes
sem dentes
nós de dedos esculpidos a fogo e uma lágrima
oca depressa de repente como
a palavra digo a vida
que nunca vem queimando rápida
um vapor breve de segundos e passou
e eu não estava em casa naquele momento
a corda acabando sei lá onde
por entre mil e um tectos
mil vezes perscrutados sem nunca
um único sopro ou semblante
lembrando
como assim o silêncio
à noite o silêncio às quatro onde nunca chega a ser dia
o silêncio no sofá uma cova no seu lugar e quieto
apenas
resposta porque nunca dúvida.

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