sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

que digo?
choveu vinho sagrado pelo vale a abaixo
é sangue senhor é sangue
não que digo?
era a bacia hidrográfica junto ao cós
o leito das ninfas dentadas
o mênstruo das piranhas
também mas não
então? mas que digo?
não sei se era tempo de inverno
mas foi uma enxurrada por ali abaixo
uma água turva turva turva que fazia dó
nem os peixes escutavam que digo? nem
os peixes falavam mas seria impressão minha
ou traziam as águas o teu corpo de jangada
anjo amadeirado das fontes
ali despejado da torneira divina foi quando
te vi pela primeira vez há tantos anos
tantos quando te vi pela última vez
mas que digo? estás
agora aqui à minha frente e a mão pousa no canto
do verso e se não o acabo a culpa é tua e da chuva
de lodo que fazia nesse dia em que o caudal transbordou
e o teu corpo morto veio bater à ombreira da minha porta
a pedir o ar dos séculos.
ainda estavam as vizinhas com o ímpeto das línguas
a sugar as cascatas de vinho que lhes corriam pelas janelas
já os meus olhos sacudiam o mosto da tua boca.
porquê tanto tempo? mas que digo?
não foi tanto tempo assim foi
só uma vida.

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