sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

requiem para uma charneca em flor

um dia desaparecerá
a mansidão dos pinheiros
e eu levar-te-ei
cansado triste rosto
de espiga morta
agulha em flor pelas giestas
uma dor de espinho
um martírio de solstício a bater na
tua porta de seiscentos e seis mil dias
de neve ausente. de morte em vento
aquela que fica mais ténue presa ao olho
esfregas e cai-te o sentido no colo
e esperas até veres florir
até o veres florir
mundo novo sem admirabilidade
apenas o teu rosto em reflexo.
tão inteiro que se quebra
num reverso de janela
num salto gélido para o caminho dos profetas
a noite alta em que se atravessam as estrelas
e o teu sol despido nas serras
onde esse leito de misérias e de sangue suspenso?

um dia desaparecerá
a parede inteira
a corrente vagarosa
o nítido rio caudaloso das fachadas.

e
entre a mão e a espiga
a tua face amor
a tua face verterá sombria
o beijo febril de um cardo.

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