cabe-me relembrar
que não
as ondas de manifestação
da incandescência das horas
não têm fim.
e que procurar
o término dos ponteiros
a lâmina aguçada de uma agulha
a findar a recta que fundou
o horizonte
já tudo isso não tem
explicação
e que a determinação a tê-la
é um nado-morto falho
uma bíblia genuflexa
ao senhor do sem sentido.
cabe-me a mim dizer
aos transeuntes
com pernas de veraneantes e sorrisos
que lhes prendem as sandálias até aos dentes
que sim
houve uma puta que pariu
meio mundo
e outro tanto
só para ouvir dizê-lo.
sai mais cara a fama que o proveito
e o dela foi deliberado
a fama já não tanto.
isso sei-o porque conheci
homens sem idade com cara de cartão humedecido
amarfanhados pelos beijos dos netos que morreram
no mesmo dia em que as memórias
e eles disseram-me que essa puta primacial
ainda nos deixara a costela quente
a voz rouca de vez em quando
e a mão apertada contra o peito
assim um pouco dormente
todos os costumes de andar coxeante
para nos lembrarmos dela
mulher soturna com cheiro de terra e lábios de lacre.
hoje cabe-me a mim
dizer que sim
que somos filhos do firmamento
e os gelados dos turistas que se derretem
são os únicos que ainda me ouvem
pois só eles sei que choram
contra o chão
a sua carne própria
moldada à pressa
para escorrer mais avessa
a víscera branda da compaixão.
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