sábado, 6 de julho de 2013

outra vez manhã

apercebes-te que os sons da noite
são estes
inócuos pulsares de luz
e uma multidão de pernas para o ar
sobre o teu eixo de rotação.

e enfim segues
para casa que é caminho seguro
até te latejarem os pés
da alma com maior sangue
que veias
e no fim deitares à janela
as preocupações
feitas horas já tão velhas.

é o cantar de uma cidade
e tu não sabes bem
como se encaixa aqui a tua solidão.
deitaste por momentos a cabeça nos passeios
sondaste os pensamentos à calçada
tentaste determinar os fluxos esventrados de uma civilização
para encontrar mais frio o ouvido
seco o rugir monótono da centrifugação
dos passos em volta.

é o cantar de um corpo
e tu não sabes ainda
como findará este morto.
as teias
minúcias dos minutos mais marcantes
que se formam aos cantos dos olhos e da boca
ainda não conquistaram o perdão.
ainda são elas que sem nome se enleiam
e cruzam meladamente os nossos passos
prendem-nos contra o chão
sufocam-nos os ecos finos de um dia fresco
para nos entrarem nos ouvidos e repousar
mais sós dentro de nós.
sem elas e com elas
a solidão seria a mesma.

ouve.
o salto cai
num silêncio profundo de manhã em levante.
não foi gente
foram os teus olhos
que já voaram.
e o dia que se pressente
já não quer vingar
já nem se entende
não quer crescer e roubar
não quer beijar nem matar.
quer apenas ser dia
e se o sentido o habita
ele foge-lhe.
não quer alma
quer beber luz e quer ser findo
antes que o pressintam só
antes que lhe apertem o nó
e o tornem eterno.

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