sábado, 6 de julho de 2013

vacuum

o tiro seco que depois se converte em carne
aspergida na vidraça incandescente
sob os rigores do meio-dia.

tem os meus olhos

dissecados
guardados

já fugazes
no bolso interior
do casaco de um estranho que cruza a esquina
e dá para outra rua
o golpe suspirado dos passos.

finos
selectos

os suores
de caminhante indefeso
sob o clarão do futuro.

agora o que me espera
é a mão frouxa
a apresentar brancos os dentes
da repleta vida burocrática
dos papéis cadentes
sobre as ruas antigas a servir
de chuva sobre a estrada.

creio
porém

que escondi o que me roubaram
fiz véu
embrulho de alma como transparência
esses recortes de jornais
endereçados aos visionários e sós
que comem da malga da loucura a eterna ração
para alimentar ossos e enxugar lágrimas
torná-las correctas
bem-educadas
privadas
serenas
compassadas
aniquiladas
pérolas sobre a mesa a acompanhar as rosas
na sua cor de murcho
no seu odor
a presença inalienável
do homem deitado sobre a própria face
no reflexo aguado de olhos
outros seus sem nome
dançantes na parede despida
os tremores próprios dos pequenos lagos
no fim de uma estação.

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