[o defeito das ascensões lentas
é estarem perfeitas para nós]
crio um rebento que vem
nascer cego à minha boca.
será o cuco do relógio tanta espera
tanta fadiga a pesar-me nas costas
e ainda agora são três da tarde
e eu sou novo de mais para queixumes de cinco
horas com chá e torradas
a verter plácida manteiga sobre o traço amarelo
da canícula dos dias secos.
fico estupefacto como
tudo refulge tanto sem coros nem catedrais
para me ameaçar a crença.
vês como és pouco e isso te basta?
ou nem tanto
o mundo progride e eu sinto o assento do autocarro
colado como quem diz
saio na próxima
mas agora já estamos nos prazeres
e aqui acabam os eléctricos e as almas dos poetas
por isso saio a custo e vou estender-me
num vazio mais ledo sobre a laje
desenhada a fio de prumo com vectores de cometas
a minha degustação de sexta-feira
o meu não me crer
a pintar retrato de fachada
a ser vento assobio de gaivota abandonada
betão armado desta cidade feita em bloco
este meu bocejo alaga as colinas
vence os montes com a sua ironia sacralizada
e morre sem dedicatória dos netos queridos
e familiares para sempre na nossa memória
e nos corações de seus fiéis amigos e companheiros de armas
e de letras [como se não fossem uma e a mesma coisa]
este recitar de epítetos que não me chega
às unhas principiadas em terra húmida como escura
destas lágrimas de sal sem nação
nem mensagem nem comoção.
o dia é belo e desaparece
também o rosto dos poetas
também isso se esquece.
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