sábado, 23 de novembro de 2013

ore stigmata

lava-me os olhos
que uma boca só não chega

chegas tarde
depois do jantar
para já não sobrar nada.
o espelho espera-te de guardanapo em riste.

fala-me dos lagos
e dos outonos
e das superfícies esféricas
ou dos ombros de bronze desses dias.
tudo são relevos, meu caro
tudo são relevos
e eles furam-te os olhos
à velocidade do tacto.

a língua já espirra sangue
e o corpo amolece.
quem diria que não passaríamos de um só corpo inerte
nas vagas dos abismos
eco lá no fundo da carne
sopro de júpiter em metaformose entumescida.
segue o sabor da conquista com selo
e a saliva que o lacra
a saliva que o encoraja corte entre os dedos
a saliva que o engana
passa-lhe rente ao corpo uma mão de banho nocturno
maresias de rios podres
odes de poetas frios
véus pútridos da fantasia
e
o diáfano só no olho. só no olho
a sensação de um abraço forte
de tempo forte com
sol forte e porém tanto frio.
marcou o céu com a boca das nuvens
um corpo neste corpo
até perder a voz pela dor do esmagamento.

até que te digam
"eu espero por ti
e colo aos lençóis
as crostas dos meus
estigmas inflamados".

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