ou melhor dizendo:
come a sopa toda
abraça os novelos sem lã
apenas aqueles de carne mais madura
e suga-lhes os caroços.
prende à boca a vacuidade insubmissa
sai com ela à rua entra com ela em casa
leva-a no carro leva-a dentro de ti
à mostra como porcelana lascada ao canto do olho.
já cresceu tanto. é o hábito de ser tia.
os dias submetem-se ao carpir do gato e
ele só quer a sua jaula ele só quer
arranhar de novo o gelo arreganhar
o dente podre já era chamam-lhe
inexistente. como se a vida fosse posta à porta
amontoada com as folhas do mês
mais doente. os corrimentos nasais
saem-nos mais obscuros que a renda
dos cristais perfeitos. somos o reflexo dos copos de enxoval
limpinhos limpinhos limpinhos
imaculados das obscenidades desses lábios
farejadores das borras de sangue menstruado
livres da marca oleosa dessas línguas
penetradoras dos finíssimos veios horizontais
(aqueles mais temíveis. os que nos ligam).
chega a hora do jantar e não resistimos a mandar um
NÃO! QUE SE FODA!
mas vem o zunido das abelhas de avental
crescer a peste junto aos seios. as mãos uma na outra
um arrepio prematuro. e um braço quase sem pele de nervos.
melhor dizendo como a sopa toda. comemos todos a sopa toda.
por isso também tu
chegas ao prato e só vês a mosca.
assumes que vestiu a vida do avesso.
mentira. mentira.
ignoras a colher. ignoras a mulher. engoles o prato
num só sorvo.
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