vamos começar pelo princípio:
a franqueza é sacrossanta
e eu não sei escrever.
ora o candeeiro de rua deu sinais
de uma aparição
mas desta vez não era eu no espelho
era a rua deserta
e a luz oscilante dos olhos entreabertos.
só acreditava em mim
e por isso segui.
não queria ser mais um a buscar
nos silêncios o sereno
das soluções
a súmula fechada do tríptico
inacabado do universo.
não esperei por milagres
e eles não vieram
por isso cheguei igual à porta de casa
e a casa reconheceu-me e entrei
com dias a passarem pelos cabelos
e com os dias o ressequido
mais áspero dos lábios.
aconteceu há pouco
e parece de meio século já
o meu olhar zangado a cruzar
a transparência das cortinas.
castrada a voz
(nunca a tive
porquê isto agora?)
restam-me os sons a prolongar
a linha do finito.
é ali que eu moro
naquela casa ali na esquina
no virar da rua a atravessar
para o lado mais espesso escuro escondido.
é dali que vem o zunido
nem sei se fino e irritante ou grave e confuso.
uma pulsão extrema de algo que morre eternamente.
a fenda que me atravessa a testa e abre caminho
acaba ali
onde a rua começa.
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