domingo, 4 de agosto de 2013

diuturno

é impossível dizer ao certo quando foi.
só mesmo que desde esse dia uma fagulha
ou brilho de vidro
se instalou ao canto de um dos olhos e agora persiste
como um zunido insistente
ou a fala abismal das eras a fazer eco
nas ramagens sobranceiras ao precipício.

é impossível dizer ao certo o que foi.
só mesmo que desde esse dia a saliva queima
e já não há espaço no meu sorriso para amar
arpejos de mel como se o fim da tarde fosse meu
retrato perdido para sempre desse tempo de sóis
mais uns que os outros tão diferentes em trama
de folhagens. os caminhos escuros palpitam-me
na testa uma dor lancinante e vou recitando baixinho
a fazer acorde com os passos os meus trechos
de cor porque sei-os da boca divina de um demónio
nado-morto.

e agora vem o extenso todo de mim
crer-me diferente mas não sou
porque não sei quando
não sei quê
já me marcou
já me deixou
pode ter sido ontem hoje mesmo
pode ter sido sempre.

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