sábado, 26 de outubro de 2013

Nastássia Filipovna

vou dizer-te tudo:
a figura intrigou-me
e bem podia ser o meu deus ex machina
a minha hybris ou nem sei que peça
fragmentária da magistral arquitectura trágica.
bem podia ser uma víscera minha palpitante
bem podia ser um esgar um trejeito de boca
um brilho negro de olhar entre duas frases
e
dois silêncios amam-se como
o cheiro da terra húmida se liberta dos teus dedos
nessa perseguição louca de um espaço
dentro
mais dentro de algo que caiba em nós e na bendita
amaldiçoada solidão unânime
dos cobardes.
há quem mate apenas para se matar
constantemente e queiramos sempre
essa febre de mão contorcida
esse jacto flamejante perseguindo a raiz do olho
essa cascata de veneno vertical alucinante
a penar na nossa cabeça e a inflamar
nas línguas um travo azul de insónia
que nos abra a mão dos fantasmas e a boca
dos lugares vazios.


é tua a certeza dos intervalos.

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