sábado, 2 de fevereiro de 2013

Da comoção ou a falsa poesia

Senta-te. diante de ti a mesa e a janela.
estranho não te ouvir murmurar
desgostos ou o enfado próprio
de quem anda como sonâmbulo
pelo gotejar da casa fria.

Falei-te. talvez tarde, ontem
mesmo te disse que o que a vida
contém é massa biológica efervescente.
o espírito é gotícula que assoma à superfície
faz cócegas no estômago
explode-te arrotos guturais,
mas é só isso. não te movas.

Olha-me. não fujas lá para fora
como se recolhesses para dentro.
o que há mais neste sentido de ser
são oblíquos sinais e caminhos transversos.
não poderemos ser rectos por convicção.
se hoje te digo para esqueceres
é lembrando que o que passa por nós
vai e deixa a mácula em cicatriz.

Responde-me. haverão mais lagos do que este?
mais reflexos de céu e outras cores,
mais aromas de inverno e estigmas de verão
que estes teus velares nocturnos?
nunca como agora verti sentimento.
e sinto-me fraco vazio. sabendo que fujo também,
não te perdoo o eterno retorno da culpa.
a expiação tem horas de flagelo
e nós continuamos. melhor sem ele
e sem ela. que se guarde o vento num jarro
e os seus murmúrios. que se atenha a alma
a contemplar friamente a natureza pálida
de um segredo  arrependido.

Disse-te que o tempo estava instável.
soube de antemão que tu, e o teu ser de sol
não sabem ser sombra quando há eclipse.
não sabem segurar na mão o espinho que se entranha.
não sabem colher dos dias o traço do contínuo
porvir. e hoje que comoção é essa, que mole
apego é esse aos olhos de quem passa.
que pousar de alma e de vontade como lençol
com que vais cobrindo o mundo, rastejando,
marcando no chão o traço da memória.

Há segredo e assentimento
um murmúrio que ecoa na cavidade das paredes.
mas eu sou isso, a tabula rasa
marcada, pontapeada, cuspida, manipulada.
sou a cicatriz de mim mesmo,
e só assim me sei segurar na trave oscilante
de um ritual. sabendo-me espelho.
sabendo-me falso.
sabendo-me nulo.
mas existindo.

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