(Ao cair da noite, nevoeiro.)
Houve um estranho que se aproximou
com um diálogo de suicídios e outros entreténs.
"Ouve lá, tens lume?"
Não tinha
o respeito necessário
ou paciência desmedida para diálogos
circulares. Não existem lábios que teçam
odes perfeitas ao pressentimento
de uma narrativa postergada.
"Escuta, não seremos todos
senão esse grande aborto sociológico
que é o advir das grandes massas?
"Pensa, a arrogância do indivíduo
não terá em si o fardo do solitário sublime?"
As órbitas falam como poucos,
logo o lume que não houve se apagou
antes sequer de se lhe escutar o crepitar,
ou de se lhe sentir o gemido calmo
de um vício.
Se agora me afasto, estranho, ou tu te afastas
e o mundo gira e nenhum de nós sabe bem
como nos afastamos,
não desconfies de quem
sem lume nem cigarros nem critérios nem vida
pára às esquinas dos bairros antigos
a pisar contemplativo
murmúrios das pedras da calçada.
Longe vai o barco
e, porém, o horizonte tão perto.
(Schubert, D.929 - Andante con moto.)
A máscara, tantas vezes
a máscara nos caíra
enquanto dizíamos entre gargalhadas,
sim amor, também tu
sim amor, também nós
temos coisas em comum
e rompemos véus de preceitos e tabus
para nos comungarmos mutuamente.
Um espelho nocturno em lago calmo,
uma profecia de tragédia anunciada.
Esse brilho de quem mente,
que guardas nos olhos. Essa
magnífica seiva, pujança de primavera
que é confundir o mundo com o bálsamo
da ironia.
Que pensamento obscuro sobrevoa
o fixar frio de um jogador?
Será o prazer frívolo do ludíbrio,
ou a diversão solene do escárnio?
Tomar almas e beijos
com a mão celeste de um demiurgo,
substituir o feixe luminoso da aurora
que entra na matinal janela absorta
pela lembrança indelével de um cheiro.
Sei-te mais do que penso.
Mais do que me penso. As imagens
são isso. A solidão rarefeita
quando ingénuos palpamos
o tecido aéreo, a carne desfeita
de um reflexo.
Um abraço e sabemo-nos vazios
incessantemente.
A esfera rósea da noite passa
com o vento. Calor ondulante
de velas que se apagam e derretem
na nossa mão.
Não sei em que dia, em que tempos
acordei e vi sem sombras
outro olhar como o meu.
(Jacto de luz pristino)
Quando levantar o nevoeiro
sei que posso caminhar em paz,
buscando o enredo sensual
do abraço envolvente que esse manto branco
vai deixando entre as árvores.
Ao longe, nas horas
desenham-se ainda
contornos de uma pulsão fria.
Pequenas lagoas que sobram da tempestade
com pequenos céus lá dentro
e pequenas palavras nesses céus.
Quem abre portas
ao firmamento?
Quem deixa entrar em morada proibida
o eco marmóreo do transcendente?
Se repousar
no ombro cáustico da dúvida,
se tirar proveito
da obstinada comiseração interior,
se for tudo
o que me prometo ser. Sem luz
que me revele a bestialidade concreta.
Sem retratos pendurados na parede
e o quotidiano servido na mesa.
Sem climaxes espúrios
que nos ditem a necessidade de existir,
deixamos em tudo o que tocamos
a semente hedionda do medo,
o lamento sórdido de um prazer
que se desfaz no nosso leito,
nesse sufoco rouco da nossas mãos,
o nosso desejo sussurrado em profecias
de manhãs mortas e vidas adiadas.
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