pego no café não o bebo
(abocanha-me o ventre)
sei que dali virá não bom tempo
uma madrugada ferida pela missão dos campanários
um comboio de frente para os estrangeiros
um idioma uma face estranha neutra
corre a apanhar aos soluços o jornal espalhado sobre
a ronha dos que partem. vem em paragonas
que abriste a janela para ver o traço físico dos homens
as suas mãos cabeludas e desordenadas
aos arranques pela santa estação fora.
hei-de sempre voltar aqui
pagar uma conversa. desprezar o café.
fingir que não fumega. que já chove. ou ainda
que o azul é só meu. da auspiciosa cor que se esfrega nos bebés.
o talco de morte que te desenha os contornos da tosse.
a fatalidade da luz enviesada. o decalque sobre o vidro
dos teus ossos de espera. mala aviada. cigarro desfeito.
uma fome de manhã. sempre eterna manhã antes das partidas.
jejuamos que é como quem diz
apertamos as mãos e sofremos
para alguém que resta além de nós. o inevitável
cego ou uma cautela irreconhecível
colada ao meu sapato molhada e terna
a vacuidade da despedida.
venho aqui apenas para te ver na pele de quem parte
que sei que não vai longe. o mundo já não é só
paris e planície. lisboa às sextas. trovoada sobre o monsanto.
estes adormecem no resíduo. ainda o cheiro. vão a braçadas de cinzeiro
ter com o destino
e tu com eles hás-de chegar uma manhã
aceitar o café morno cruzar a perna e achá-la fria
a minha mão. não te enganes tudo é esforço.
aprendi com os teus olhos
a ter medo dos dedos. a cortar cedo a peste dos membros
a definhar com os pombos a melhor idade para escrever.
hei-de ter trinta e estar para além do velho
sentado no banco que ainda pressinto meu por defeito.
esqueci-me de fazer evocação às flores neste poema
e à música. faço-o num post scriptum ou
no teu seio. não importa. ainda hão-de haver
manhãs como esta
iguais às que nunca vivi enquanto estive por casa
e tu vieste no das sete e meia segundo creio.
viu-te o taxista e uma língua de sol sobre o tejo
e termino aqui. só digo que
a poesia nunca nos há-de dar filhos
daqueles sãos e verdadeiros
daqueles que interessam.
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