quarta-feira, 14 de maio de 2014

tens um blog rapaz
a vida feita
uma mão nas costas
palpitações generosas no peito
uma palavra sempre ansiosa
a arredondar a ponta da língua
lágrimas mais sujas (já cresceram tanto)
um gosto musical selecto
predilecção pelo rancor dos automóveis
e uma afinação característica na voz interior
a de poeta domingueiro madrugador afoito
dos que não têm medo de ter só medo
às aranhas pelas casas meio nus depois
do eterno banho
lodo lodo ante lodo
rapaz tu branquinho saído do mobiliário cavalheiresco de wc
olha chegámos tarde de mais ao casamento
já devia ser meia-noite se tanto copo de água e embriaguez
e matamos demasiado cedo talvez se bem me lembro
o sorriso afectado de uma insónia canina.
diante dos hialinos caros verbos às montras
tamborilam outros dedos estranhos
uma boca fechada imita uma sonata de schubert
muito mal amanhada muito mal amanhada
a afinação destes dias sempre muito acima
a ranger os olhos a rasgar os cantos das bocas
fico-me. boquiaberto. não sei quem canta
ninguém nunca canta rua abaixo só
debaixo da capa de pele aberta
uma chuva intensa de som rasteiro. fico-me
blog à banda adeus ao regional para tomar
e em diante somos por fim alguém.
já custa. é um tempo
com outro espírito dentro.
já basta.

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