joão vicente - sim o próprio - não concretiza.
é enquanto ouve o magnum misterium de lauridsen
que percebe que não concretiza. um homónimo
confundido às bilheteiras dos teatros
- e isto não é
pouco senhores - falso
até no verbo que dormita
inconsciente num fio de saliva seu só.
as palavras aguardam mas joão vicente olha
para outras bocas. de onde migrarão os medos
de onde escorrerá - teima ele em crer -
parto apenas de placentas:
a nuvem vocálica dos versos.
[cheira-lhe ao inefável pela manhã
mistura de pão morno e lixo prenhe de calor.
um sol já lento fere-lhe um pensamento
- teima ele em crer - goethe é o derradeiro auctor
deu-nos a sua última sonata para flauta e cravo.]
cobarde ajeita a posição das pernas mas é o ventre
que custa. suportar o peso desconjuntado do corpo
em viagens eternas para a terra que lhe sabe o nome.
ele dela nunca o soube. o verdadeiro. porventura terá
um mar nos olhos. arde nesse esfreganço salgado
a idiotia. chega um tempo em que somos
verdadeiramente medíocres. ainda bem.
talvez um dia
assuma a mendicidade íntima das coisas.
talvez aprenda a decalcar
através do vidro
a forma última do silêncio.
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