diz a mão trémula
já escrevi
é como tu
acordada algures
num filme remoto às esquinas
a fixar a água turva
opaca tez do teu véu
de boca mordida pelas
evasivas enunciações do amor.
dizes tu
o romance é a cona da terra
não se há-de achar nunca
esse aroma
o furor final sito
da ausência.
a verticalidade de um enfisema pulmonar
que me prometeste
estática de olhos
vazios a pé de madrugada
beijando a ombreira da porta
sussurrando as minhas cem mil mortes
antes que eu acorde.
vestes o corpo de um avesso qualquer
sais puta apetrechada toda um ponto fixo
ao ar fresco das cinco e meia
a sangrar
o queixume redondo da estrofe.
queimei-te o rosto
a linha do queixo aos poucos
só a minha mão dentro da tua boca.
parece demasiado fácil
fingir que se ama
a folha branca em carne viva
aresta genital
crescida em torno esfinge.
mas
é um ódio
só um. a tua presença.
olhos postos na nuca de um sonho.
cresces à noite o silêncio entre os joelhos
a tua pele metida nele
e isso basta para me abrir os olhos
não voltar a adormecer
crer na cama nua apenas
o peso de uma palavra
de que não me recordo.
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