segunda-feira, 24 de novembro de 2014

ou isso
a tarde
inqueta-se presume-se
vibra na linguagem das falanges
ignorando
o manto despido sobre as árvores
como quem dá à luz
devagar uma auréola
em pranto
uma dor de cabeça.

ou isto
a encefaleia dos ninhos vazios
a ceifa esgotada pelos montes.
não me queima as mãos este frio
este andar despido e de vermelho cru
como se buscasse
como se fingisse que buscasse
a tua boca vazia num horizonte de glaciares.

(observemos o que se segue.
o poeta sucumbe à clique. prostrado. boca de cena. aparte.
isto era desnecessário. o leitor sabe. o leitor compreende.
o leitor vê-lhe os olhos cavos. vê-lhe um sentido inato de gente.
ele que escreve/canta/escarra também é gente. também comunica
por signos. peixe e quiçá escorpião. ascendente não tem nem falta de pão.)

novembro é quando mais amo
este rigor calado de morte
o mundo segreda-me o nome
abjecto como
um beijo florido e podre
(sei que me repito

vejam-lhe o sofrimento. pede compaixão.
mas furta-se. coitado. coitado não. bizarro.
uma mão de fora como quem pede. outra para dentro
como quem esmurra. a figura pálida até podia ser esguia.
mas não. é de T3 em Linda-a-Velha
Peugeot 206 e sextas na marginal. o poeta fede
a fumo de escape. ai se fede. a Lisboa ela inteira na diagonal.
a sua vida própria é a vida de qualquer um. o incomum
já lhe saiu caro em 1983 [não nascido repare-se
apenas projectado e desenhado a carvão seco]
vinha de mal com a existência com olhar perdido
em cafés nas luzes estranhas sobre gente estranha que nem dá por elas.
o poeta sente. mas tem só de podre ali aquele
aquele dente. como dizer isto sem comiseração.
é tudo canja de galinha. sopa com pés e unhas ainda.
um frango no talho mal cortado. amparado pelo amor são
do cutelo. sangue pouco. dor que já foi muita.
e onde entra o poeta nisto? sorve a canja. é daqueles sujeitos incorrectos
aqui na mesa de trás enquanto se engana [as pessoas não são assim estranhas.
a luz sim. mas as pessoas são pessoas não vale a pena o espanto
o trabalho. o sujeito e o predicado. o silogismo. a condição suficiente.
o puta que pariu o dente. as pessoas são como cada qual e assim está certo que o sejam.]
enquanto se espanta e se dilata está na pândega o poeta. também merece.
mas não merece o sorvo. a arte do sorvo. o ouvido salpicado no sorvo.
o talher sujo o guardanapo em sangue o unguento do caldo o cuspo e o ovo.
não. é demasiado. ora cale-se e às mágoas. o frio é lá fora. faz chuva é novembro.
sempre foi. aqui ao quente não. isto não. esta mentira indecente.
cuspa o que tem na boca sujeito. cuspa esse dente podre essa maldição.
o poeta olha-me de frente. mas ingratidão. era só o bancário inócuo.
o farmacêutico de portas abertas até às oito. o pasteleiro do conde barão.
escuso-me. ridículo. faço cara feia. o tempo persiste. chove porque é novembro.
sempre a enchaqueca neste mês e neste momento. sempre a dor na nuca. a ilusão de ser eu
dentro daquela pastelaria ali à conde barão sentado e é julho. acaba-se o vinho.
sorrio. lá dentro. fazem almoços e hoje deve ser polvo. prossigo raquítico e de esmola na mão.)

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