sábado, 22 de novembro de 2014

dois transeuntes cruzam-se na rua
então e esse manifestozinho
então e essa artritezinha
isso sai? isso fica?
já lhe cheiro a tinta fresca
já lhe vejo a perna lesta

num outro ponto da cidade
leia isto diz aqui
o sentido do poema é o poema
averiguemos
o poeta não está
saiu sem nota morreu
algures no espaço sideral onde conquistou
o último croissant de chocolate
a calma da mastigação eterna
o after-life das estrelas
quer ver
leia isto diz aqui

algures no centro nevrálgico da letra
de crédito
amor traz-me o panado de frango que te pedi
sou assim delicodoce com os salgados
não era este amor
o amor sai de cena
fim do acto conjugal
(poupe-se o leitor aos indecorosos celeumas
da maquinação do tempo)

por fim aqui ao lado saguão com nespereira
um bota-cigarros desesperado
pulmão abaixo calçada do duque acima
os prédios a terem o lume virado para as traseiras
a magnífica luz que se esconde nas traseiras
a pilha de livros pronta a queimar nas traseiras
está-se no inverno e tem-se medo
mesmo com um quotidiano comprado a prestações
certinho direitinho todo o mês
com feriado santo à porta
mas mesmo assim medo
rabo entre as pernas
cu como os demais
um desfilar certinho de meditações
na avaria correcta imposta pelo medo
na centrifugação a aprox. 1080 rpm do medo
(sai sempre seco)
tenho isto
não ver o término das mãos
turva-se-me a vista ali chegando ao pulso
ando pelas ruas a apalpar nem sei bem o quê
paredes animais géneros humanos
um sei lá de malvadezas
porque sou sobretudo o dia retirado
o espécime de nojo com que olho para o nojo
a embarcação empoleirada num vento podre de verão.
determinado a cair
cara rente ao chão
leia isto diz aqui
amigo somos demasiados
tantos que a conta se nos perde
economize luz
guarde a artrite para si mesmo.

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