a pluma espécie plena de espuma
dá música suficiente para três.
antigamente era assim que alimentávamos
famílias inteiras descalças dos pés à cabeça
nem vestígio de piolheira
apenas música santa sacra música
podia ser
a fagulha que acende nos teus olhos a mais falha agulha
onda de medo onde o céu expande o seu manto
e tínhamos a boca vazia o estômago mais confortado
as mãos cicatrizadas um brilho saciado nos olhos
dos avós os netinhos de cabeça no colo das bonecas
catando uma vida já cheia do grosso sebo
da memória escorregadia. ah que belos
azeites brilhavam no escuro acendendo nesses tempos
mais claramente a noite que pairava dentro
augusto plúmbeo uterino refúgio
tão bem nos sabiam as espinhas das letras
a garganta rasgada à velocidade dos estalidos da língua.
depois veio uma grossa veia
rebentar dentro da cabeça do pai
a mãe chorou e fugiu
para dentro de uma mudez de fogão apagado
comida fria e ranho absorto na face do pequeno.
era tudo tão cedo ainda. a mais velha juntava as letras
queimava tudo na grossura dos caracóis engolia as lágrimas
não lhe saía o destino na rifa apenas o verão
a imensidão da fazenda bruxuleante
a queimar lenta um responsório de Victoria.
(musica ficta)
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