sexta-feira, 1 de março de 2013
Ouve os lamentos de Orfeu
Ouve os lamentos de Orfeu
ou o eco arbóreo na manhã.
Onde houve horas neste lugar
que trouxessem sol sem pejo
e flores de primavera
sem sorte de bons tempos?
Ouve e mente-te.
Assim talvez na resiliência
do barro que se molda sem jeito
mas que escapa ao criador,
sejas tu mais coisa que as coisas
e lamentes menos o não ser.
Mas se por ora mortos,
sem prazeres nem rituais
que diluam da face a expressão
com que a lira nos impregnou,
sejamos junco dançante e disperso
à margem da montanhosa torrente
Do incerto. Só o verdadeiro
gosto salgado da infinitude
nos sabe queimar de cor a língua.
Sem sabermos que deusa tece os mantos
de Odisseu, culpamos-lhe a mulher
e o tempo. Mas o rio e as marés
Que nos levam quem somos
têm mais da criação
que os nossos anseios pecadores.
Sublimes vontades alheias
ao palpitar firme das crenças,
santa genoflexão ao altar
Da natureza, sem vozes proféticas
para além dos risos lascivos
dos enamorados que lhes combrem
mantos de malmequeres e urze
com o suor intempestivo
dos corpos em contracção.
Olhai fixo, poeta,
o tempo e o lugar em que as coisas
se esvaem de si mesmas.
Nesse ponto azul do horizonte,
inconstante fluxo de precipício,
tens a alma encarcerada com prazer
E fé, porém, na queda.
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