Sei que a verdade tem momentos de nudez.
Se te olhasse nos olhos fixamente,
se não desviasses do meu o teu olhar nesse arco,
essa hora imóvel de marmóreos refluxos
seria a nossa verdade, despojada da invenção.
Observo, e dos meus poros jorram
jactos da diáfana luz da manhã.
Persigo o coreográfico levitar
das minhas mãos. Esses palpitar
de alma meu, tão só.
Mas hoje veio o dia desperto,
e se o solstício nos trouxe a sombra
e um outro refulgir de contrastes,
também nos trouxe as esguias redomas de luz.
Contemplada no vazio,
a couraça mole do destino desfez-se.
Penetrando até à cegueira de um oblívio
veio o crepitar da madrugada.
Se por ora dormentes,
e o sopro quente na manhã fria
tem volutas e arcos e capitéis nossos,
a coríntia flora que me coroa
de silvestres afagos o espírito
nesse ressurgir imaculado
das epifanias matinais,
são os teus olhos, por detrás
do sol fremente.
O despir claro da manhã,
de ombro fresco e seio saliente
em clamor de aurora.
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