domingo, 14 de abril de 2013

Passagens II


A vida explodia-lhe
por dentro.

Era como a incontrolável
força de um vento ciclónico.
Não havia nada a fazer.

As palavras brotavam-lhe
de uma memória que não era sua.
Achava que as coisas surgiam
no acaso das coincidências puras.

O ocasional, sempre o ocasional.

Temia-se, secretamente.
Tinha um medo
que soava a uma nota longa e profunda,
um traço diluído, permanente na paisagem.

Não sabia quem realmente era.
Nunca chegou a saber.

As coisas são o que são,
dizia.
E tentava esconder
que sabia muito mais do que isso.
Tentava omitir o óbvio:
nem tudo é.

Não era afinal
coisa alguma
com a qual
alguma coisa
pudesse ser comparada.

A imprecisão dos contornos do seu espírito,
a mescla aterradora de cores que lhe pintavam
a face obscura,
a sensação de não se sentir
toque algum diante da sua pele.

As coisas são o que são,

e há coisas que são
coisa nenhuma.
Não mais do que
um raio de sol generoso
a inundar o terraço
do mundo.
Um momento.

20-08-2011

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