quarta-feira, 17 de abril de 2013

Salvé Rainhas


Não há assim tanta cor em dizer

Salvé Rainha Mãe de Misericórdia

mas o nexo temporal
da amamentação que nos dá
o pingo escorreito do mamilo de santa
dos nossos desejos ainda me faz
pulular indecentemente se declamo

Salvé Rainha Mãe de Misercórdia

não sem antes subtrair toda e qualquer
consciência do cheiro que vem da rua
e dos gritos de velhas em apoteose
quando nuas são acariciadas pelo fogo
quente frio de granito e mármore
das catedrais antigas que pereceram
em terramotos de perucas e hoje têm
nomes de italianos com fios rosa
a escorrer pela balaustrada
com caras escuras de santos que sofreram
martírios de madeira agarrados
indecentes perenes cravados à cadeira
que os ungiu com a prece diária de perdigotos
ou do hálito da rançosa manteiga com isso
que é também o cheiro a alho de quem ama
o sumo sacerdote das pedras da calçada
o buda deitado das colinas de lisboa
que aponta o dedo com merda na ponta
como se o chiado tivesse cheirado o cu
e só depois rindo tivesse apontadado
para o inglês queimado que bebe chá na brasileira
porque o café santo do pessoa lhe dá caganeira.

Salvé Rainha Mãe de Misericórdia

num domingo em que fui à missa
levei uma cabra pela corda
e disse-lhe que me ouvisse
o respirar mansinho de cristão.
Mas houve quem balisse mais que a cabra
quando me soube santo ajoelhado
em púrpura rendenção de medo
que a idade traz bexigas e infelicidade
e mais vale ter deus no bolso tarde que cedo.

Salvé Rainha Mãe de Misericórdia

quando sigmund cofiou a barba e reparou
que a virgem tinha um pénis na algibeira
feito com PVC que não era daquele tempo
e depois se engasgou com o fumo do cachimbo
que só lhe trazia à memória Paris feio e sujo
com putinhas sadias como tubérculos
e vinhos de urina correndo escura nos passeios;
quando freud interveio na eucaristia
disseram-lhe que tinha um prepúcio a menos
e ele calou-se porque sabia
que o prepúcio em falta lhe proporcionava
dos avós a ourivesaria
e isso o afecto perpendicular à vagina
que se abriu para deixar sair
mais do que entrar
novo sangue vermelho escuro de profetas
que alertam para as manhãs desertas
em que se desperta com pau vazio.

Salvé Rainha Mãe de Misericórdia

quem põe a mão ao peito
sente o caroço tomado e contrafeito
que se aninhou em esperanças vãs
de nos beber palavras sólidas e profundas.
Aninhou-se em esperanças vãs
esperanças vãs
que nos ecoam necessidades
ou os factos próprios de quem no auge
da bebedeira sabe
que a rapariga que espera táxis profusos
na rua lá em baixo
óculos escuros sem dentes
mas enfim o prazer de lhe contornar o rosto
para sobrevir outro dia
com raparigas que esperam táxis profusos
e que clamam Salvé Rainhas
às santas que passam velhinhas
avós de um outro tempo sem
táxis de raparigas
nem esperanças vãs
dessas raparigas em espera
com dentes de óculos
sem velhas
Salvé Mundi
Salve Regina Salve
Salve
Salve.

Um dedo de puta dispara uma pistola
quando a noite vem vomitar ao cais sodré
ou a pistola dispara um dedo de puta.

Salve Mater Misericordiae

quando dou por isto
sem aquilo
o caroço rasteja
e ofegante diz-me devagarinho
ao ouvido aberto para ele

"Três Salvé Rainhas e um Pai Nosso
e podes ir para casa livre de pecado".

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