I
estudo sobre mãos
há um inspirar cego
de olhos vendados
se nos tocamos
em subtil noite clara.
num pano novo
linho adulto velho juvenil
que nos guarda
um apego à carne. arrepio.
com que ódio nos trouxemos
até nós de vez.
ímpetos contraídos
ou a geração de um bulício
atacado de ardor. com o ir
e vir de um vento ancestral.
ar que sem nexo
nos enrola.
não que as palavras
roubassem cores
quando rasgos nos ferem
as pálpebras mortas.
não que o cuspir
de sabores
vazios sentidos
sem permanência
nos fechassem côncavos
na indefinição
de um pulsar de têmpora
nostálgico dedo
divino a acariciar
ferindo lados
em saliva quente.
porque isso que contemos
tem-nos pressagiados
em bocas abertas
corações como abismos.
toque que de mãos
se penetra. ou
ser eu sem ser
contraponto forçado
do fogo-fátuo tardio.
II
estudo sobre lábios
o rumor ilusório
do mal que te lambeu
da face o medo
não bastou para te
excisar
o fragor suado
frio eco de beijos escorrido
interminavelmente escorrido
de dentro de ti.
III
estudo sobre olhos
cavado fundo.
cavado inerte
nesse buraco sem foz
de rios que levantem no ar
com o vento da aurora
cascata nova sem maré.
súbito silêncio
profanado em azul
diáfano
estelar. o cometa raiado
da esdrúxula combinação
de sonhos invertidos.
um palpitar de veias
finas. círcular
abraço côncavo
feito dos clarões
metálicos da asa da noite.
sabor negro a língua
de ferro cravado
no teu
luminar de terra
descente.
houve eras
em que vi
que dos faróis da alma
janelas brotassem
sem maresia de manhã
apenas sopro
murmurado dos etéreos
deuses adormecidos.
hoje porém
sem escadas
outras tantas
ascensões nos afundam
no sufoco primevo
banal relampejo
da ausência de pranto.
outro tanto
querer
nos convoca
seres sem dedos
mais que o toque
do firmamento.
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